Blog Sedes » Qualidade e salários da classe política

Mai 08 2009

Qualidade e salários da classe política

O editorial do Diário de Notícias de hoje defende o aumento dos salários da classe política em nome da qualidade, embora reconhecendo que “há quem ganhe bem na política, e sobretudo quando a abandona.” Pessoalmente sou absolutamente contra qualquer aumento dos salários da classe política por razões que expliquei num artigo publicado em Novembro de 2004 no Público, infelizmente mais actual do que nunca.

Eis o resumo da meu argumento. Primeiro, os salários da classe política são baixos em relação a quê. “Para além de várias comparações internacionais desmentirem esta observação (basta olhar para Espanha ou Itália), confunde-se de forma negligente o salário mensal ou anual dos políticos com o salário do ciclo de vida, que é a medida relevante. Evidentemente que muitos políticos estão dispostos a exercer funções governamentais ou parlamentares por um salário relativamente mais baixo porque esperam ganhos futuros com cargos de gestor público (…) ou consultor nos grupos económicos pagos de forma principesca (…) Ainda não ouvi nenhuma história de um político que tenha terminado a sua vida laboral na miséria pelos anos dedicados ao serviço público, mas temos muitíssimos casos de nomes que passaram pelo Governo ou pelo Parlamente que estão hoje patrimonialmente muito bem sucedidos (o que não é criticável, mas apenas confirma que um salário nominalmente baixo de ministro pode ser largamente compensado pelos ganhos obtidos após a saída do Governo).

Segundo, dá-se por descontado que existe uma relação de causalidade entre salário e capital humano na política. Está por demonstrar. Parece-me mais provável que tal relação de causalidade não existe. “A premissa desta teoria é que salários mais altos atraem qualidade e capital humano. Isto é verdade num mercado competitivo que não é o caso português. Os partidos políticos formam um oligopólio fechado que controla de forma efectiva a entrada de capital humano. Acrescente-se que é um sistema de raízes culturais e históricas, já que a elite política portuguese sempre foi bastante provinciana, pouco cosmopolita, onde se previligiam fidelidades pessoais ou laços familiares sobre competência e mérito. Sem um mercado político realmente competitivo, um aumento de salários é uma pura transferência de rendas do erário público para o património da elite política.” Como aliás temos visto…

Terceiro, o caso português é até melhor que outras democracias. “Em todos eles [Estados Unidos e democracias consolidadas da UE], o salário nominal dos políticos é inferior ao salário de um CEO de uma grande empresa e, nalgums países, é mesmo inferior ao de professor catedrático numa universidade de topo (o que não é o caso em Portugal). Para além disso, ouvimos em todos os países sucessivas queixas sobre a qualidade dos políticos e a mediocridade reinante nos partidos políticos. Diria mesmo que em Portugal tivemos governos de invejável qualidade em termos de capital humano e experiência política (falo, por exemplo, do 1º Governo Guterres em 1995 que numa das suas crónicas, Marcelo Rebelo de Sousa chamou o governo dos sábios).“

O problema da qualidade no nosso sistema político não está nos governantes que temos tido. “Na minha perspectiva o problema não está na má qualidade dos políticos, que é comum a muitos países, mas na falta de quadros superiores da Administração de elevado capital humano. Os sucessivos governos têm nomeado assessores e consultores, directores-gerais e chefes de gabinete, isto é, as equipas de decisores políticos, de capital humano muito medíocre (…)E este problema não será resolvido com um aumento de salários dos políticos, mas sim agravado.

Dizia eu em 2004, “O que Portugal precisa é investir recursos numa reforma da Administração Pública que nos aproxime da qualidade dos franceses (por mais elitista que seja), da independência dos ingleses (minimizar o impacto de alternância de governos nos altos cargos da Administração), da tecnicidades dos americanos (pondo a ciência ao serviço do bem público).” Evidentemente que decorridos quase cinco anos o PRACE não fez nada disto.

Se por pensar assim sou populista, como diz o editorial do Diário de Notícias, pois que o seja!

PS O Diário de Notícias de hoje apresenta também uma reportagem sobre um dos cancros da justiça portuguesa pouco falado e nada reformado: os doutos pareceres.

2 comentários até agora

2 Comentários para “Qualidade e salários da classe política”

  1. Adalberto Carlos da Silvaa 27 Mai 2009 as 2:06

    Parabéns Srs. políticos, vocês realmente merecem este aumento que estão querendo, pergunto-lhes e o povo? será que nós o povo não poderiamos ter um indice igual para todos, ou seja desde o faxineiro ao Presidente um indice só, ou seja, se votado fosse 20% para um, este indice valeria para todos será que não é justo pois todos somos trabalhadores e damos duro por isto, vamos acordar gente o povo tá na miséria enquanto vocês estão a gastar o dinheiro que nos pertence, afinal somos nós que pagamos impostos e não temos sequer uma segurança ou atendimento medico decente…

  2. Adalberto Carlos da Silvaa 27 Mai 2009 as 2:18

    Mais um desabafo Srs. políticos quanto aos nossos jovens, o que esta sendo feito por eles? as escolas estão uma vergonha, os alunos não respeitam os professores, os professores tem medo dos alunos, e muitos alunos que na realidade mais parecem marginais dentro das dependências das escolas, atrapalham o desempenho daqueles que realmente querem estudar, por isso lhes dou uma opinião do que poderia ser feito, as escolas tem de ser monitoradas, e os alunos problemáticos ao menor sinal de agressividade e ou desrespeito aos professores, deveriam ser expulsos deste estabelecimento de ensino e enviado a estabelecimento especialmente construido para eles, ou seja, um colégio militar, onde estes alunos aprenderiam a respeitar mais, não só a sociedade mais também a sua família e seria alguém na vida, difícil né…