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Mai 16 2009

O Achismo Nacional

Alguns comentadores têm mostrado a sua preocupação com a prática instalada de discutir políticas públicas em Portugal na base do “achismo” em vez de uma sólida discussão técnica. Infelizmente nada de novo. Talvez o único facto curioso a notar é quanto mais instrumentos técnicos existem para discutir e avaliar opções políticas, mais o “achismo” prevalece como forma privilegiada de debate. Os Estados Unidos têm o Congressional Budget Office, o Reino Unido tem o RIA Unit, Portugal tem o “Prós e Contra.”

Mais grave, contudo, parece-me o “achismo” disfarçado de solidez técnica. Dois editorais recentes chamam a atenção nesta perspectiva. Um deles, já convenientemente comentado pelo meu amigo Pedro Magalhães, referia-se a politicas de segurança e o broken windows. O editorial tinha um ar muito científico, mas infelizmente baseado numa literatura antiquada, desactualizada e parcial do problema. O pequeno detalhe do broken windows ser acompanhado de um aumento de quase 40% do número de law enforcement agents per capita no período em questão nem sequer é citado.

Outro exemplo: o editorial do DN sobre a vitória da esquerda na Islândia. Já se sabe que as crises do capitalismo ajudam os partidos da esquerda, e assim foi na Islândia. Veremos se o mesmo acontece em Junho nas europeias. Dizia o editor do DN. Infelizmente o seu fundamento científico e empírico nunca existiu. Bastava uma leitura mais cuidadosa da literatura. A crise 1929 beneficiou os conservadores no Reino Unido e a direita e extrema direita na Europa (as frentes populares são uma moda da segunda metade dos anos 30). A crise de 1973 não beneficiou os democratas nos Estados Unidos nem os socialistas em França. Por outras palavras, a correlação entre crises do capitalismo e governos de esquerda nunca existiu… Portanto, o editorial não tem sentido nenhum! Puro “achismo”.

Sem dúvida que o “achismo” é uma tragédia nacional. Mas o “achismo” transvertido de solidez técnica é muito mais perigoso… E anda por aí!

4 comentários até agora

4 Comentários para “O Achismo Nacional”

  1. VBa 17 Mai 2009 as 11:22

    Caro Nuno,

    Partilho inteiramente as suas preocupações relativamente ao “achismo” nacional. Creio mesmo, e já escrevi sobre isso, que um dos factores de degradação da nossa vida cívica tem sido a “democratização” da opinião promovida pelo maior interesse no espectáculo do que no rigor informativo de muitos mídia, em particular no sector do audiovisual. “Democratização” essa que, na falta de um escrutínio qualificado, trata em plano de igualdade a opinião fundamentada do especialista e o palpite impressionista de quem quer que seja. Como este acaba por ter, em geral, efeitos mais espectaculares, tende a ser mais procurado e mais promovido e a opinião informada, muitas vezes “chata”, é facilmente desconsiderada. Eu costumo até brincar com isso dizendo que o ditado “em terra de cegos, quem tem um olho é rei” está errado porque, nessas circunstâncias, o personagem com melhor visão estaria condenado já que ninguém acreditaria no que ele vê.
    Mas, partilhando dessa preocupação geral, creio que, no caso das “broken windows”, se tem sido excessivamente duro com o comentário jornalístico. É certo que a tese das “broken windows” – “onde existir uma janela partida não arranjada se envia um poderoso sinal de que ninguém se preocupa, e esse sinal será um incentivo forte a que mais crime surja” – não constitui uma condição suficiente para redução da criminalidade, mas não deixa de ser uma condição necessária.
    É empiricamente verificável no nosso dia a dia um princípio que poderia designar por “o lixo atrai lixo” (e que é semelhante ao das “broken windows”: quando alguém deposita lixo num qualquer lugar público e esse lixo não é rapidamente removido, rapidamente o lugar se torna numa lixeira e, daí, rapidamente se torna num lugar degradado. Mais generalizadamente poderemos dizer que quando a “ordem” de um sistema é quebrada nalgum ponto e essa quebra não é rapidamente reparada, esse ponto se torna num catalizador da desordem. A reparação da quebra não é condição suficiente para evitar a multiplicação de rupturas – para isso é necessário um “sistema de segurança” eficaz que previna e repare rapidamente as rupturas no sistema – mas é uma condição necessária para que a quebra não alastre e não enfraqueça a defesa dos sistema.

  2. Maria Teresa Monicaa 17 Mai 2009 as 18:21

    Independentemente da solidez técnica, pode-se ter opiniões despretensiosas acerca dos mais diversos temas. Foi isso que levou à implantação do sufrágio universal.
    Mas quem pretende ser jornalista, tem de atender à fundamentação do que escreve, mesmo que não seja com o rigor de um académico profissional. Acho importante Nuno Garoupa ter chamado a atenção para o “achismo” transvertido de solidez técnica.
    Mas também não podemos esquecer que em certos temas polémicos há estudos que confirmam e outros que infirmam determinados preconceitos. Basta ver o que se passa no labirinto do aquecimento global do planeta para nos lembrarmos quão difícil é ter uma ideia credível acerca do que se passa.
    Quanto aos factos, não tenho dúvidas de que é inconcebível que o nosso jornalismo não se esforce mais pela verdade histórica. Quanto às interpretações desses mesmos factos, aí a liberdade é maior, conquanto siga as metodologias correctas.
    Relativamente ao “Prós e Contras”, sempre entendi que aquele “formato” é uma boa tentativa governamental de ensaiar diversos projectos para ver se “pega”. Bem como diversas tentativas legislativas que são colocadas como exclusivo em jornais, mormente económicos, para avaliar a reacção dos “indígenas”.
    Triste forma de governar!

  3. Pedro Pita Barrosa 17 Mai 2009 as 23:09

    Eu cá acho … que um estudo dito cientifico resolve qualquer problema de justificar uma decisão…

    Eu cá acho que apenas quando a tal solidez cientifica dos estudos realizados pelo e para o Governo for sujeita a crivo similar ao do “peer review” (por exemplo, formal ou informalmente cada estudo receber uma análise critica técnica – não mediática e imediata – da oposição) se consegue reduzir o “achismo”

    mas é possível que este comentário seja ele também um exemplo de achismo ?!

  4. ricardo saramagoa 18 Mai 2009 as 16:06

    A crença generalizada de que as opiniões valem todas o mesmo, radica na cultura nacional de desvalorização do conhecimento.
    No nosso país o conhecimento, obtido através do estudo e da experiência, tem um valor relativo e sempre passível de ser substituido por algum “jeitoso” com expediente, padrinhos influentes e fidelidade ao grupo que o acolheu.
    Acresce que por tradição histórica, não se vence na sociedade portuguesa, através do trabalho, da iniciativa e das provas dadas, mas sim por outros critérios entre os quais a competência tem pouco peso.
    Hoje, na época da “sociedade do conhecimento”, vivemos submersos em informações, ignorância democratizada e certificada, em que poucos pensam pela sua própria cabeça e querem ouvir a verdade ou as ideias de quem tem algo importante para dizer.
    As elites portuguesas também pecam pelos mesmos defeitos, pelo que a maré que se instalou dificilmente pode ser contrariada.