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Mai 22 2009

O Achismo Nacional (2)

Publicado por Nuno Garoupa a 6:27 em Artigos Gerais

Numa democracia consolidada como a nossa sem dúvida que temos direito a ter a nossa opinião bem como a expressar essa opinião. Cada um pode achar o quer achar.

Mas em políticas públicas temos de duas coisas bem distintas, uma é a fundamentação técnica, outra a decisão política. O “achismo” prevalece quando a decisão política não é precedida de uma fundamentação técnica. Evidentemente que, em democracia, o “achismo” não retira legimidade à decisão política. Simplesmente torna o processo de decisão política menos informado. Em Portugal, como bem sabemos, o “achismo” deixou-nos com políticas públicas de péssima qualidade.

Um exemplo: a recente reforma do regime jurídico do divórcio. Resulta surpreendemente que uma reforma tão polémica e tão importante não tenho sido acompanhada porque qualquer tipo de fundamentação técnica, seja de quem apoiava a reforma, seja de quem tinha dúvidas. Mas o que é preocupante é que a sociedade civil nem sequer exige esse tipo de fundamentação técnica, aceitando o “achismo” como o enquadramento adequado.

Mas o que me parece mais grave é esse crescente “achismo” com vestimenta de fundamentação técnica. Não melhora o processo de decisão política, mas prejudica a discussão política porque finge-se superior ao habitual “achismo”. O habitual “achismo” não procura qualquer legitimidade técnica, mas apenas decorre de preconceitos ideológicos. O “achismo” transvertido de fundamentação técnica precisamente quer disfarçar preconceitos ideológicos. Quer evitar a discussão política mas, ao mesmo tempo, não aguenta um escrutínio técnico.

Nesse contexto é preocupante o papel de programas televisivos como o “Prós & Contras.” Enquanto forum de discussão política, ninguém disputa a sua utilidade. O problema é quando se transformam em laboratório de políticas públicas e tubo de ensaio de reformas ou programas legislativos. Essa situação é tanto mais grave quando não existem think tanks ou espaços públicos de discussão técnica (dadas as debilidades da universidade portuguesa).

2 comentários até agora

2 Comentários para “O Achismo Nacional (2)”

  1. Adriano Volframistaa 25 Mai 2009 as 10:24

    Nuno Garoupa

    O tema está bem enquadrado e descreve, com alguma minúcia as origens do fenómeno do achismo.
    No entanto considero que o problema podia ser ultrapassado se a Universidade e os poucos “think tanks” que existem, recrutassem elementos com capacidade para expôr ao grande público. Por mais de uma vez, no prgrama que refere, assisti, penosamente devo confessar, a exposições técnicas que se tornavam em declarações herméticas para os (poucos) iniciados no tema.
    O sucesso do Prof. Marcelo (em minha opinião) reside nos seguintes elementos: 70% em capacidade de exposição, em termos simples, temas muito complicados e complexos, 30% de preparação cuidada e bem documentada.
    Com acesso a meios de grande audiência existem poucos e nem sempre com a regularidade que merecem, recordo o Prof Nuno Crato.
    O grau de educação, entre outors, condiciona a qualidade da democracia, senão não existiriam diferenças tão apreciáveis.
    Cumprimentos
    Adriano Volframista

  2. Nuno Vaz da Silvaa 25 Mai 2009 as 11:09

    Com a alteração do paradigma dos partidos políticos para máquinas difusoras de marketing e publicidade em deterimento de centros de discussão de ideias, valores e projectos, diria que a lógica do “achismo” seria inevitável.
    O excessivo recurso aos opinion makers nos meios de comunicação não é diferente também da aposta dos governos nas politics em deterimento das policys.
    Ao fim de contas, e infelizmente, a lógica é idêntica a todas as àreas da sociedade. Concordo que as Universidades poderiam ter um papel importante para a discussão técnica e para a análise das próprias politicas públicas. Mas sejamos realistas: uma universidade portuguesa realizou um MPA – Master in Public Policy and Administration, com base na filosofia da Columbia University. Esse mestrado tinha como objectivo preparar pessoas para eventualmente integrarem cargos públicos, e com conhecimentos em vários dominios desde a ciência politica, passando pela macroeconomia, microeconomia, liderança, gestão pública….e muitas mais àreas. O mestrado durou 2 anos – uma única edição!!!
    Sinto-me um privilegiado por ter sido um dos (poucos) alunos. Mas não posso deixar de sentir tristeza por num país com tanta debilidade nessa àrea, tal Mestrado não ter tido continuidade.
    Não só não existem os think tanks como não existirá também interesse em potenciar certo tipo de conhecimento técnico, o que é bem mais grave.
    Começo a acreditar que certas franjas da sociedade portuguesa têm receio de quem tem conhecimentos técnicos e os pretende colocar ao serviço do interesse público. Provavelmente serão as mesmas franjas que optam pelo “achismo”, pelo facilitismo e pelo interesse exclusivamente privado (embora disfarçado de grandes causas públicas)…
    Pelo interesse nacional, não tenham medo!!!