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Jun 08 2009

Fim do neoliberalismo ou fim do socialismo democrático?

Andaram meses a dizer que a crise internacional era o fim do neoliberalismo. Colunas de opinião, tertúlias, entrevistas. Quem dizia o contrário andava cego ou era demagogo. Eles é que sabem. Ainda no mês passado o editorial do DN dizia que em tempos de crise económica profunda é a esquerda que ganha desfavorecendo a direita. E quantos editorais anunciaram o fim da direita neoliberal, o enterro político do azul da senhora Thatcher, uma nova era da esquerda social. Mas eis que “La derecha gana terreno en Europa” (El País), “European voters punish left” (BBC), “Vague blueu en Europe” (Le Monde), “Descalabro de los socialistas en Europa” (El Mundo), “EU voters take a turn to the right” (Guardian), “La droite se renforce au Parlement européen” (Le Figaro), “El centro-derecho barre en Europa” (ABC).

A verdadeira crise é da social-democracia e do socialismo democrático, não da direita. No governo, como em Portugal, Espanha, Alemanha ou Reino Unido, ou na oposição, como em França, Itália ou Holanda, levaram uma sova eleitoral ontem, em quase todos os casos histórica. Todo o centro-esquerda, terceira via ou socialismo de verdade. Perderam votos para a esquerda radical, mas perderam muito mais terreno eleitoral para a direita e para a extrema-direita.

Dizem agora que as sondagens falharam. Sem dúvida. Falharam mesmo. Por isso cuidado com as sondagens que dão 40% ao PS para Outubro (agora parece que a maioria absoluta já não é o objectivo).

Mas durante meses falharam também os nossos excelsos intelectuais de serviço repetindo banalidades e generalidades sobre a crise do neoliberalismo. Evidentemente que não perdem um minuto a explicar porque andaram enganados tantos meses. Continuam hoje, como ontem, a repetir o mesmo simplismo. E os nossos jornais e televisões continuam a dar antena a esta gente que, como se demonstrou ontem à noite, simplesmente não compreende a realidade e é incapaz de analisar o que realmente se passa na Europa. Mas será por isso que são especialistas e comentadores de serviço. É que não lhes sobra o tempo para pensar!

2 comentários até agora

2 Comentários para “Fim do neoliberalismo ou fim do socialismo democrático?”

  1. ricardo saramagoa 08 Jun 2009 as 15:15

    Eu tive um grande professor que chamava a essas pessoas: “homens de um só livro”.
    Incapazes de analisar a realidade pela sua própria cabeça, e armados pela sua cartilha, explicam com arrogância todos os fenómenos com recurso a meia dúzia de chavões cujo significado na maior parte das vezes desconhecem.
    Estas pseudoanálises, não são mais que propaganda travestida de conhecimento, que obtem eco nos media e, à custa de uma constante repetição, se tornam “verdades” indiscutidas.
    Depois de desvirtuado o significado das palavras e dos conceitos, perante a ignorância mais ou menos generalizada, qualquer discussão séria dos factos torna-se impossível.
    Chegados a este estádio, onde as emoções substituem a razão, está criado o caldo de cultura ideal para o proliferar dos populismos e demagogias.
    A recém subida eleitoral da extrema-direita e extrema-esquerda são um primeiro indício deste fenómeno, a que já assistimos antes na crise dos anos trinta na Europa.

  2. António Jardim Santosa 10 Dez 2009 as 23:18

    Qual deve ser o papel do estado? É consensual que só existem duas alternativas: (i) estado assume o papel de providenciar com serviços próprios os bens comuns, ou (ii) estado pagador desses mesmos serviços prestados por privados. Ambos os modelos possuem virtudes e defeitos. Começando pelo segundo, e sem cair na deriva do favorecimento do individualismo como atributo negativo, há a apontar uma crítica que muitos actualmente fazem ao papel do estado em Portugal: a economia extremamente dependente do estado. Como é óbvio se o estado não tiver um papel no mercado e só pagar os serviços prestados cria-se uma situação de total dependência da economia face ao estado pagador de serviços. Acresce que este modelo tem como vantagem teórica a optimização dos recursos pelos privados, mas não podemos esquecer que isso implica o pagamento do lucro dessas empresas por serviços públicos. Adicionalmente, o estado pode neste modelo passar ao utilizador uma parte do pagamento do serviço público. Deste modo este modelo para funcionar deverá seguir um conceito de sociedade totalmente diferente do actual: impostos muito baixos, leis laborais mínimas, regulação forte e acima de tudo uma sociedade com ética e moral. Ora como qualquer pessoa racional pode concluir este modelo é instável por natureza. O exemplo dos EUA é exemplo disso. Além do mais, na prática com as imperfeições do sistema e da sociedade torna-se injusto socialmente, não existe igualdade de direitos e deveres entre ricos e remediados.
    Antes de abordar o primeiro modelo convém salientar que em Portugal o partido do regime “democrático” PS quer o melhor dos dois modelos. Quer instaurar uma democracia que favorece as parcerias público-privadas. O que se passa, e com estes últimos governos se acentuou, é que a gestão privada (ou público-privada) tem uma série de vícios ligados precisamente com a falta de ética e moral da sociedade. As consequências estão à vista: Portugal é simultaneamente o país onde mais injusto socialmente, com menor rendimento per capita da zona euro, com população com menores conhecimentos (diferente de menores qualificações académicas), menor esperança de vida (e este indicador diz tudo sobre a capacidade da sociedade) e também o país onde as pessoas que pagam impostos pagam mais impostos (quando comparado com a qualidade dos serviços, preço dos serviços, etc.), o país mais corrupto e onde o papel regulador do estado é inexistente. O estado público-privado é asfixiante, estrangula e corrói a sociedade.
    O primeiro modelo é no meu entender o mais virtuoso. Facto: Nunca li nenhuma notícia de jornal de uma empresa portuguesa que fosse exemplo no estrangeiro e que exercesse a sua actividade numa área de bem comum. Partindo deste ponto e retomando um texto que já escrevi, o papel das empresas não é substituírem-se ao estado, e muito menos criar riqueza virtual (controlada por poucos para benefício de poucos), a economia não pode ser controlada pelas finanças virtuais, mas sim pelas mais valias e pela utilidade das empresas. Ao estado o que deve ser do estado: o bem comum, é para isso que pagamos os nossos impostos. Não há justificação para que em sectores onde não há possibilidade de produzir mais valias, como os bens comuns, sejam empresas a gerir e a facultar esses serviços. Há sim uma necessidade do estado, assim como das empresas, de gerirem bem os seus recursos finitos. O papel das empresas é produzir riqueza com o progresso competitivo do país, e o do estado é dar suporte à sociedade de modo a esta não se ter de preocupar com o futuro.
    Eu defendo uma clarificação entre os dois modelos. Assumam-se os partidos, não fiquem a meio caminho, no pântano!