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Jun 22 2009

Manifesto do 28

Pode-se discordar do manifesto dos 28 no conteúdo (veja-se o post do Pedro Lains) ou nas formas (o meu caso pessoal). Mas não deixa de surpreender a reacção dos intelectuais do socrismo (muito bem resumida aqui). Quase tudo insultos e desqualificações sem debate de ideias. Parece que a nova humildade socrática não faz escola… gostam mais do estilo truculento e arrogante de quem não admite alternativas. Acho que esta nova humildade vai ser mais complicada para o PM do que ele pensava… a começar entre os seus apoiantes!

5 comentários até agora

5 Comentários para “Manifesto do 28”

  1. Pedro Pita Barrosa 22 Jun 2009 as 22:38

    Entramos em campanha, não sei qual a surpresa com a reacção dos representantes do socratismo.

    Infelizmente, não haverá grande discussão da substância do documento, nem de ideias.

    Em particular, o “socratismo” continuará fixado na ideia de que se tem um problema de falta de procura, e apoiar-se-á nas posições de Paul Krugman (esquecendo-se conveniente e talvez inconscientemente de que Portugal não é os Estados Unidos).

    Essa fixação impedirá que vejam onde está o principal problema: falta de resposta da “oferta”. Mesmo quando havia procura, a nossa incapacidade de crescer economicamente foi notória.

    Há-de recuperar a procura nos outros países, altura em que por incapacidade de produzir algo que outros queiram comprar de uma forma generalizada iremos novamente crescer pouco.

    Nessa altura veremos o que nos dizem os grandes defensores dos investimentos públicos de grande dimensão…

  2. Nuno Vaz da Silvaa 23 Jun 2009 as 10:49

    O “Manifesto do 28″ é um documento que deve ser analisado e que do ponto de vista macroeconomico tem toda a relevância. Também eu defendo essa reanálise ao plano de grandes investimentos públicos, no quadro de uma estratégia (se é que existe) de posicionamento do país daqui a 10, 20 ou 30 anos.
    Mas não pode esse documento ser analisado sem ter em consideração que Portugal não é um território que proporciona a mesma qualidade de vida a todos os seus contribuintes. Vou dar o exemplo de Portalegre. Depois de anunciados os novos concursos públicos para as novas auto-estradas, Portalegre é a única capital de Distrito do continente sem esse activo. Aliás, hoje em dia, é mais rápido ir de Lisboa ao Algarve do que de Lisboa a Portalegre! Ora, se todos os portalegrenses liquidam os seus impostos como os restantes portugueses, como se explica que existam outras capitais de Distrito que tenham 2 ou mais ligações viárias com estas características? (ver http://deseconomias.blogspot.com/2009/01/sete-razes-para-exigir-auto-estrada-em.html)
    Compreendo que o “manifesto dos 28” tem um cariz macroeconómico e por isso mesmo é alheio a estas questões mas a acção politica estratégica não pode ser alheia às assimetrias regionais que têm criado verdadeiras clivagens sociais entre diferentes áreas do país. Mais do que defender o cancelamento dos investimentos públicos, eu defenderia a diferenciação positiva dos investimentos pelo território nacional. Pode haver regiões mais desenvolvidas do que outras mas o Estado tem responsabilidade social em desenvolver tendencialmente um único país. E, por vezes, nem é preciso investimentos megalómanos! Vejamos por exemplo o caso do Japão, em que um pequeno investimento público no sector agrícola e ambiental está a ter um retorno inesperadamente positivo na economia e na sociedade (ver edição de Junho da Monocle).

    Para além disso, penso que se deveria dar especial enfoque à questão da divida pública. O desafio do futuro não pode ser apenas o combate ao défice! Com o endividamento galopante das contas públicas, chegaremos a um ponto em que não poderemos hipotecar mais as gerações futuras. Num modelo simples com 2 períodos (presente e futuro) e 2 agentes (o que vive no presente e o que vive no futuro), facilmente chegamos à conclusão que o actual modelo de politicas públicas está esgotado. Basta extrapolar este modelo para a realidade em que vivemos. É preciso produzir mais do que gastamos e o Estado tem de começar a poupar (para já, para pagar a divida) em vez de gastar desmesuradamente! Nas famílias, nas empresas e no Estado, o saldo orçamental no médio prazo deve ser zero!!!

    É preciso alertas como o “Manifesto dos 28” mas é fundamental que haja discussão pública, troca de ideias, argumentos e não apenas guerrilhas politicas que podem ser muito amigas do compadrio partidário mas que se revelam muito inimigas do desenvolvimento sustentável e integrado do país!

    É ano de eleições e por isso (infelizmente) vai ser dificil promover uma verdadeira troca de argumentos. Mas começa a ser tarde para resolver um problema sério que é de todos e que mais cedo ou mais tarde vai implicar aumento de impostos e muitos sacrificios para pagar as dividas utilizadas para financiar investimentos pouco produtivos e pouco utilizados pela maioria dos portugueses.

  3. [...] um comentário O recente manifesto dos 28 economistas veio levantar na blogosfera uma discussão lateral sobre a efectividade da política fiscal na economia portuguesa. Os argumentos utilizados são [...]

  4. André Barataa 25 Jun 2009 as 9:37

    Ainda que com algum atraso, também eu gostaria de apontar a minha divergência quanto à forma deste documento dos 28. Penso que não terá sido a melhor escolha limitar a tomada de posição a economistas. Sendo o aspecto económico essencial, não é nele que reside a essência do problema. O problema é primeira e ultimamente político e não é bom avaliar esse problema, mesmo do ponto de vista de uma avaliação técnica de custos/benefícios, exclusivamente a partir de uma moldura de análise económica. Desta feita, estou de acordo (pelo menos parcialmente) com a opinião publicada de Vital Moreira na crónica do Público. Discuto argumentos.

    Também gostaria de dizer que me deixa perplexo a forma impassível como cronistas conceituados em jornais de referência se permitem publicar afirmações notoriamente falsas ou carentes de fundamento como a de que os economistas em causa na tomada de posição dos 28 seriam de direita, de que teriam falhado nas previsões da crise económica (ao contrário de outros que seriam, por mágica coincidência, os que defenderiam agora estas grandes obras públicas), de que não haveria outros sectores da opinião pública que não estes economistas que tivessem posição sustentada e no mesmo sentido sobre o assunto, etc. É lamentável mas ainda assim previsível que se vá por aqui. No entanto, se temos realmente uma opinião pública amadurecida, deve também haver uma maior confrontação/indagação da verdade do que se proposiciona e da validade argumentativa. Se tudo pode ser dito, então tudo o que se diga vale o mesmo, ou seja, nada.

    Finalmente, tenho assistido com igual perplexidade à tentativa de alinhar as duas posições em cima da mesa (na verdade, até são bem mais e por razões muito variadas) a uma clivagem Esquerda pró-TGV versus Direita neoliberal anti-TGV. O absurdo só vai passando pelo habitual tacitismo de curtas vistas que o debate político em Portugal por vezes evidencia. Obviamente, há muito boas razões de esquerda para não ser favorável às linhas de TGV, ou a estas linhas de TGV, ou a apenas uma, ou a uma decisão já, ou ao detrimento de outras obra públicas eventualmente mais prioritárias, etc. Naturalmente, a cavalgante emoção de uma crispada luta ideológica entusiasma uns e outros, mas, uma vez mais, será óbvio que não estaremos a discutir nada de relevante. E decisões baseadas em discussões irrelevantes não poderão, a não ser por acidente, constituir boas decisões.

    Fica o comentário.

  5. luis nevesa 10 Jul 2009 as 22:29

    Este manifesto tem a particularidade de evidenciar os graves desvios em termos de crescimento, endividamento, défice público, perca de rating da República Portuguesa a breve trecho, versus investimentos faraónicos, que estão sujeitos a serem ganhos por consórcios estrangeiros, passando as mais valias para o exterior, sem que represente menos desemprego de nacionais.

    No relatório da Saer sobre a situação económica e os negócios em Portugal, é salientado que é necessário “bom senso” no Fisco e Segurança Social “para não actuarem em termos formais de invocação directa de ortodoxia (…) inviabilizando empresas e criando mais desemprego. Exigir uma recuperação demasiado rápida aos doentes poderá condená-los a uma recaída, para alguns, fatal”.

    O desemprego representa crises familiares, como células individuais que são em termos de micro economia, mas também no seu conjunto poderão estar associadas a tensões e riscos de carácter social.

    A maioria dos trabalhadores no activo, já não dispõe de liquidez a transportar para o tecido comercial e de serviços com a repercussão a montante no industrial, se transformarmos esse pressuposto associado ao desemprego, temos uma situação insustentável a curto prazo.

    Os salários são ridículos, ainda hoje foi inaugurado mais um call center em Castelo Branco, com 75 novos empregos de formação superior com vencimento de € 500.00. assim vamos longe, mais vale criar novas oportunidades para cursos superiores de 6 meses, assim estavam enquadrados para esse “principesco” salário.

    Só assim as famílias, as micro e PME, podem “limpar” o “cadastro” para poderem recorrer aos prometidos financiamentos estatais, é bom recordar que sem este quadrante superior a 80% de empregabilidade a funcionar, não existe produção geradora de riqueza, nem se promovem exportações única forma concreta de aliviar as condicionantes negativas em contexto macroeconómico.

    Em circunstâncias mais favoráveis, e em governação PS, foi introduzido através do Decreto-Lei 124/96, que acabaria por ser baptizado de “Plano Mateus”, foi dada a possibilidade aos contribuintes com dívidas ao fisco e/ou à Segurança Social regularizassem a sua situação perante o Estado em 150 prestações mensais.

    Devia-se equacionar a reposição de um sistema similar, inclusivé a maioria dos casos anteriores já perfez o prazo previsto, anulando justaposição do benefício, mas como o desemprego afecta famílias com problemas ao nível do credito hipotecário, associar algo que pudesse proteger essas, tais como ampliação de prazo, suspensão de pagamento temporário, etc., mas de forma mais compreensiva, pois quando as famílias entram em incumprimento, fecham-se algumas portas negociais.

    Este pântano de indiferença, para com aqueles que vêem reduzidas as suas expectativas de qualidade de vida, quando confrontados com a sobranceria de quem governa este País, destabilizará com gravidade ambitos sociais, criando um espectro incontrolado de revolta, carneiros mas existe limite para tudo e o verniz vai estalar.