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Out 15 2009

A asfixia burocrática

As eleições são ainda uma história mal contada.
Foi dito que a campanha do PSD foi mal conduzida, que deveria ter tratado dos “problemas do país” e “da economia” em vez de falar da “asfixia democrática”. Mas os factos provam que realmente havia “asfixia democrática” e que a mesma foi parcialmente corrigida pelo acto eleitoral. Nesse sentido as eleições foram úties e positivas.
O problema do PSD e de Manuela Ferreira Leite foi que, para acabar com a “asfixia democrática” não era preciso dar a vitória PSD – bastava tirar a maioria absoluta ao PS, como aconteceu. O eleitor tem sempre razão: Ao fazer uma campanha negativa, MFL conseguiu tirar a maioria absoluta ao PS, mas não afirmou o PSD como alternativa credível. Será que inconscientemente achava que o seu partido não estava preparado para governar? “Os deuses enlouquecem aqueles que quer perder”, escreveu Shakespeare em Macbeth. Provavelmente ninguém chegará a saber o que, na realidade, seria um Governo de Manuela…
A “asfixia democrática” era verdade. Para alem dos *grandes* factos mediátcos que ocorreram e que chamaram a atenção para este tópico, há também o dia a dia. Quem trabalha na função pública ou está ligado contratualmente ao Estado, mesmo que indirectamente (ou seja, a maioria dos portugueses que votam), sabe que neste sector continua latente o corporativismo mais salazarento. Em qualquer situação em que as chefias intermédias achem que estão suficientemente seguras, começa a instalar-se um clima de “correcção política”, impera o medo de ser excluído e o desejo de estar ainda mais incluído que os outros. Daí à asfixia é um passo.
O estilo arrogante, iluminado, pseudomoderno, autosuficiente, provincianamente internacional ( ou deveria antes dizer internacionalmente provinciano?) do 1º governo Sócrates, era um incentivo a que todos os subchefes de repartição ou membros do partido agissem do mesmo modo, na pequena impunidade dos seus gabinetes.
É com grande alegria que vejo o novo estilo humilde e dialogante do indigitado Primeiro Ministro, que ensaiara já os primeiros passos após as eleições europeias, consubstanciar-se num governo de minoria. Já tínhamos saudades de governos de minoria em que todos, o Presidente, o Parlamento e mesmo nós próprios, parecemos ter um pouco mais de poder.
Comçou a partilha e acabou a “asfixia”, mas o seu fim não correspondeu nem tinha que corresponder, à vitória do partido que se candidatou contra ela. O PSD “esqueceu-se” que, nas eleições, é costume pedir a vitória aos portugueses.

3 comentários até agora

3 Comentários para “A asfixia burocrática”

  1. mopaa 16 Out 2009 as 16:17

    Com tanta campanha na rádio televisão e jornais contra o primeiro governo de Sócrates, nunca consegui perceber o sentido da propalada “asfixia democrática”
    Nunca antes tinha havido um regimento de Assembleis da República que tanto expusesse o governo e tanta visibilidade desse à oposição. Esse novo regimento foi à prática por vontade dos acusados de “asfixia democrática”. Faz sentido?
    E quando a coisa não faz sentido, só alguns acreditam e se deixam influenciar.
    Foi o caso. E teremos agora um governo simpático, que fará todas as vontades, que não afrontará ninguém nem nenhum interesse instalado. Caso contrário, com oposição na rua e no parlamento, cai o governo e é despedido. Para o evitar irá usar-se a habitual receita dos governos minoritários: manter a população contente ainda que o país se afunde.
    Haverá quem fique feliz. Eu fico é preocupado.

  2. causavossaa 19 Out 2009 as 8:50

    A estratégia é agora: não governamos porque não nos deixam com os olhos postos numa próxima-futura maioria absoluta!

  3. filipe rocha da silvaa 21 Out 2009 as 11:41

    O resultado das eleições ditou que o PS deve governar com o programa que apresentou mas que o mesmo está sujeito a uma maioria relativa, o que significa que deverá estar sujeito a acordos com outras forças políticas. Se o PS não conseguir governar de acordo com o mandato que recebeu, deverá ser penalizado por isso numas próximas eleições. Ninguem disse que é fácil governar.