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Dez 21 2009

Os problemas financeiros de Portugal

Publicado por Ricardo Reis a 15:31 em Artigos Gerais

Hoje, publiquei no jornal i um ensaio (aqui) sobre os riscos para Portugal revelados pela situação na Grécia. Este ensaio vem no seguimento da minha coluna da semana passada (aqui) e do artigo de Luis Campos e Cunha no Público (aqui).

Pedro Lains, no seu blogue, avisa que tomar medidas drásticas pode ser tão errado como não fazer nada. Concordo plenamente. Felizmente, não propus nenhuma solução no meu artigo, embora sabendo que como resultado vou receber de alguns o rótulo de catastrofista.

Como investigador em história económica, o Pedro aponta para a comparação com a crise portuguesa de 1891, notando que as razões da bancarrota nessa altura têm pouco a ver com a situação presente. Como investigador em macroeconomia, eu aponto no meu artigo para a crise na Rússia em 1998 que se espalhou até ao Brasil, México e Hong Kong, e assusta-me o perigo de contágio da Grécia para Portugal. Qual é o ponto de comparação certo? Quem sabe, mas espero sinceramente que o Pedro Lains esteja correcto. (Uma sugestao para os editores do i ou de outro jornal: convidem o Pedro Lains para um artigo de fundo fazendo a comparação com 1891.)

Aliás, como o risco de bancarrota de Portugal é provavelmente só uns 1%, como aponto no meu texto, o mais certo é ex post não acontecer nada. Acho que o risco é pequeno, mas é suficientemente grave para merecer atenção.

Carlos Santos, noutro blogue, critica o meu artigo, e afirma estar desiludido comigo. Felizmente, penso que o seu desapontamento se deve a uma leitura incorrecta do meu artigo, pelo que ficam aqui alguns esclarecimentos que poderão eventualmente ajudar outros leitores.

1) No seu primeiro ponto, critica-me por usar dados mensais que escondem a evolução recente das taxas de juro, e contrapõe com um gráfico do Wall Street Journal da semana passada. Mas os meus dados: (i) vêm da fonte directamente, (ii) são diários, (iii) começam a 1 de Janeiro de 2002 (data de criação do Euro), e acabam na última sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009. Como académico, esperava merecer de outro académico pelo menos o benefício da dúvida: obviamente, não escrevia um artigo desta dimensão usando dados avaliados a olho de relance nos jornais.

2) Também no seu primeiro ponto, Carlos Santos acha que a situação na Irlanda é mais grave do que a que eu transmito. Essa interpretação dos dados parece-me tão legítima como a minha. Eu apresento o gráfico para qualquer leitor poder formar a sua opinião.

3) No seu terceiro ponto, ele acusa-me de usar um “argumento falacioso” ao desvalorizar o risco cambial para Portugal e enfatizá-lo para o Reino Unido, e aponta para as flutuações no câmbio Euro-dólar. O Carlos descuple-me mas teve aqui uma leitura totalmente errada. Todo o argumento no meu texto diz respeito à diferença entre a taxa de juro do país X e a taxa de juro da Alemanha. Se o país X é Portugal então o câmbio é mais do que fixo: têm a mesma moeda. Se X é o Reino Unido, o câmbio é flexível. O câmbio em relação ao dólar é irrelevante.

4) No seu terceiro ponto, Carlos descreve os problemas nas contas públicas na Áustria. No quarto ponto, os problemas na Alemanha. No quinto ponto, no Reino Unido. Eu não digo nada sobre a Áustria no meu artigo. Também nao pinto nenhum mar de rosas à situação no Reino Unido. E a Alemanha pode ter os seus problemas, mas eu concentro-me no diferencial das taxas de juro em relação à Alemanha. (No entanto, se a situacao lá nas últimas semanas é assim tão grave, devíamos ver uma descida nos spreads de todos os países no meu gráfico, o que não é verdade). A Europa (ou o mundo) têm muitos países, e o meu texto tem um tamanho limitado. O meu artigo é sobre Portugal. Não percebo que um médico, quando diz a um paciente que está doente, tenha a obrigação de revelar todas as outras pessoas no hospital que têm a mesma doenca e descrever os seus casos.

5) No seu sexto ponto, ele cita um analista que diz “For sure, Greek and Spanish government bond yields could rise relative to Germany’s before they fall. But that doesn’t imply default – just a change in perceptions of the risks today.” O analista que Carlos refere diz que um aumento dos spreads não implica default. Eu digo exactamente o mesmo no início da secção 5: “Portugal vai entrar em bancarrota? Provavelmente não.” O analista diz que o aumento dos spreads revela um aumento do risco. Eu digo exactamente o mesmo, mas é preciso explicar, como eu faço no artigo, que nesta dívida só há *um* risco: o risco de bancarrota (default).

6) Na sua síntese, ele apresenta uma alternativa que eu não considerei no artigo: um bail out do BCE. Tem razão, e é possivel. Não considerei esta possibilidade, porque levo a sério o mandato do BCE que proíbe expressamente e inequivocamente esse comportamento. O Carlos acha que por razões políticas, a lei base do BCE será violada sem hesitações. Não percebo o suficiente de política internacional para concordar ou discordar desta previsão.

Responderei neste espaço a outros comentários que me enviem.

8 comentários até agora

8 Comentários para “Os problemas financeiros de Portugal”

  1. José António Girãoa 21 Dez 2009 as 20:02

    Ricardo Reis:

    O meu comentário é para o felicitar pela lucidez, equilíbrio e qualidade dos seus contributos (no i e aqui) para o esclarecimento de “Os problemas financeiros de Portugal”. Claro que a sua reflexão não pretende ser um “Tratado”, mas um alerta para a gravidade dos mesmos. Nessa medida afasta-se completamente das interpretações e propostas do Governo e seus “acólitos”, cuja argumentação alterna entre o “wishful thinking” e a “descoberta” de que ainda existem exemplos piores do que aqueles com que nos confrotamos! Daí o “catastrofismo”de que são acusados os que não subscrevem (e se rendem) à visão oficial.
    Oxalá fosse verdade! Mas se fosse, não teria sido necessário um novo orçamento rectificativo ( e da dimensão do apresentado, apesar de tanta desorçamentação!), não estaríamos confrontados com uma taxa de desemprego de mais de 10% e a crescer, com um crescimento tendencialmente nulo do produto potencial e sem saber como reduzir realisticamente o défice, sem ser com o aumento dos impostos; assim contribuindo para desincentivar, ainda mais, o espírito de iniciativa e a capacidade de inovação. Isto só para referir alguns dos aspectos mais preocupantes.
    Como o Ricardo Reis muito bem refere, o Governo e os partidos políticos em vez de se concentrarem na procura de soluções para a problemática com que o País há muito se confronta, apenas lançam “cortinas de fumo”! O Governo acaba de lançar mais uma: a regionalização. Num País pequeno e basicamente homogéneo, com um nível de centralismo governamental como o que temos, que na prática desconhece as características de uma “governance” eficaz, pretende-se que a prioridade está na regionalização. Mais uma vez se apresenta como solução a “fuga para a frente” !
    A terminar e aproveitando a quadra, gostaria de formular um voto: que 2010 nos traga maior realismo e lucidez a todos: aos políticos e à sociedade civil, para que em conjunto possamos trabalhar para que se trate de um Ano Feliz … se, como tudo indica, não puder ser Bom !

  2. Manyfacesa 22 Dez 2009 as 1:20

    Caro Ricardo,

    Como amador de economia felicito-o pelos artigos que tem vindo a Publicar no I. Consigo segui-los e apreciá-los, o que dificilmente aconteceria se tentasse fazer o mesmo numa publicação de economia de e para profissionais :-)

    Boa continuação e votos de que a Sedes possa um dia passar da teoria à pratica e dê origem a um novo partido, que tanta falta faz num Pais em que tudo o que cheire a economia é logo rotulado de economicista… Chega de saudade, socialismo e social-democracia. Que se invente qualquer coisa nova.

  3. Carlos Santosa 22 Dez 2009 as 3:08

    Caro Ricardo Reis,

    Antes de mais permita-me esclarecer que eu tentei, e peço desculpa se não o consegui, separar o trabalho académico que respeito e um artigo de opinião que me parece não abranger o quadro global. No que toca ao respeito, eu esclareço que sou econometrista, foi na econometria teórica que me doutorei, e nela investigo (usualmente em parceria com o David Hendry, meu ex-orientador e o Soren Johansen). Nessa linha, quando digo que discordei de si academicamente referia-me apenas ao estudo Pivetta e Reis (2002) sobre a persistência de inflação: os testes de quebra de estrutura, área em que investigo, e participação na IPN do BCE levaram-me a ser céptico quanto a esse resultado.
    Esclarecido isto, quando digo que o artigo de opinião não era algo que eu esperasse quero dizer o seguinte:
    a) eu acredito que tenha usado dados de frequência diária: só que para um período demasiado grande para aferir a “tendência” das últimas semanas – por contraponto ao gráfico do WSJ que reproduzi. Não o quis desrespeitar e peço novamente desculpa se me exprimi mal. Acho é que procurar movimentos em séries longas de periodicidade diária detectáveis num gráfico, é complexo. E tenho dúvidas sobre o que se aprenda com séries longas de frequência média/alta.
    b) concordo consigo que o juizo que se faça da Irlanda é subjectivo. Acho estranho, e nisso sabe que não sou o único, que as agências de rating tenham começado por ignorar a Irlanda quase numa cruzada anti club-med. Agora já se começa a falar em PIIGS em vez de PIGS, para incluir a Irlanda. O governo Irlandês assegurou uma cobertura de depósitos a 100%, no que foi um erro grave, e tem os bancos fortemente descapitalizados. Esta é a maior ameaça que impende sobre a Irlanda: o colapso financeiro, se a garantia a 100% for honrada, cria problemas orçamentais insolúveis. Ademais a Irlanda teve uma bolha mobiliária e diversas empresas eram meras portas para off shores nas pequenas ilhas do Atlântico Norte. A solidez da economia real parece-me precária.
    c) Eu compreendo que vivemos numa união monetária. Mas o risco de default da grécia (conjugado com a nacionalização de mais um banco pela aústria) levou a que os investidores se libertassem de posições em euros, e o câmbio do euro é flutuante. Se esse episódio levou à descida da taxa de câmbio do euro, imaginemos o que seria um default real? A Alemanha sofreria com isso, como todos. O risco de muitas OTs na zona euro, incluindo o germânico foi agravado a semana passada. Uns mais que outros, mas sucedeu. O contágio, no sistema financeiro, entre países com a mesma moeda é um risco que o mercado penalizou.

    O quadro global importa precisamente porque falo em bail out. Como sabe, a economia germânica tem um peso do sector exportador. Tal como a China, depende da procura externa. A zona Euro é um dos principais mercados de exportação para a Alemanha. Um colapso de um país, e a instabilidade no Euro:
    - reduziriam o poder de compra em toda a zona Euro, tornando + difícil a retoma germânica;
    - geraria inflação que é o target único do BCE.
    É nesse sentido que me parece que o problema é político: pode a europa suster as tentações sociais da aplicação generalizada das medidas draconianas preconizadas na Irlanda? Pode a Alemanha suportar essas recessões induzidas nos outros países que determinariam a sua dificuldade em exportar?
    A solução tem que ser negocial: a meu ver tem que haver flexibilidade na interpretação da cláusula de no bail out, porque a interpretação rígida geraria problemas à própria Alemanha.

    Dito isto, peço novamente desculpa se alguma coisa no meu texto lhe pareceu incorrecta a nível de tratamento pessoal. Acredite que não foi intencional.
    Melhores cumprimentos,
    Carlos Santos

  4. José Barbosaa 22 Dez 2009 as 14:57

    Caro Ricardo Reis

    Parabens pelo seu artigo no I, pela forma esclarecedora, mas não castatrófica com que habitualmente o tema é descrito.

    Tenho para mim que é a altura de começarmos a preparar a opinião publica para um necessário “apertar de cinto e já” e o seu artigo é um bom contributo para isso. Infelizmente temo que o problema que podia começar a ser atacado já, de uma forma mais suave, acabe por ter que ser resolvido mais tarde e abruptamente.

    Quanto aos comentários do econometrista Carlos Santos, são isso mesmo, correctos do ponto de vista econométrico, mas com o grave defeito de para quem os lê poder interpretar que não é preciso fazer nada pois vamos poder continuara

  5. José Monteiroa 24 Dez 2009 as 20:07

    «eu esclareço que sou econometrista» – o mesmo Carlos Santos que refiro abaixo, I presume.

    Na discussão que tem animado a campanha eleitoral e num blog apoiante do partido do Governo, o economista Carlos Santos afirma em relação ao nível de passageiros entre Lisboa e Madrid, que «essas estimativas não são adivinhação. Resultam de aplicação de métodos estatísticos e econométricos» (blog Simplex).
    Nada como dar a palavra aos especialistas… 9,3 milhões de passageiros Lisboa-Madrid, 2033 – RAVE), distribuídos por 365 dias, permite concluir pelo trânsito diário de 25.479 passageiros, metade em cada sentido. Presumo que os autores de tais estudos, tenham concluído (sem ser por adivinhação), vir aí uma explosão demográfica e económica muito significativa na península, nomeadamente em Portugal.
    É fácil perceber como economistas e outros cientistas sociais chegaram a estas conclusões. Pela crença num desenvolvimento social e económico interminável e ilimitado… sabemos (?) no que deu a crença no tipo de desenvolvimento atrás aflorado, do colapso financeiro à economia-mundo do nosso tempo, com larga maioria da população dotada dos bens que fizeram a riqueza do século XX: automóvel, habitação própria e bens domésticos, com as respectivas indústrias incapazes de encontrar mercados para continuarem a produzir e vender interminável, crescente e ilimitadamente.
    Lamentavelmente, pouco disto tem verdadeiramente a ver com a discussão pública eleitoral. Nada mais que um produto do bloco central, onde nem sequer os restantes partidos políticos se atrevam a destoar.

    Aperte-se pois o cinto.

  6. FVRoxoa 25 Dez 2009 as 10:40

    Em dia de Natal agradeço as prendas “pensantes” que o RR nos tem deixado ao longo do ano.No minimo e porque não acredito no Pai Natal, este tipo de “Ai jesus” são prendas socialmente responsáveis que, como portugues “não Tuga”, lhe agradeço.
    E, já agora, em dia de Reis, não nos poderia brindar com uma visita escrita, trazendo ouro, incenso e mirra, (soluções divinas) sobre as 3 medidas que considera, independentemente de conjecturas econométricamente bem fundamentadas ou politicamente bem justificadas,em 2010 deveriam ser tomadas?
    E, ainda mais, em época de prendas: se quiser voltar ao solo pátrio, O BP não tem nenhum ex ministro da Finanças na calha para ser prendado (parece). Pessoalmente veria com satisfação que, pelo menos um dos nossos economistas “lá por fora cá dentro” ajudasse a fazer a pedagogia e actuar pela via do rigor, sobre o desvario da classe política que nos tem alimentado ilusões sob a forma de optimismo balofo.E, na supervisão finaceira que se anteve, não tivéssemos teóricos (alguns deles de Direito) das finánças a ocupar lugares , só prque já integraram algumas deslocações ao estrangeiro de Primeiros Ministros ou Presidentes da Rápublica.
    Boas Festas Rcardo Reis.E Bom dia de Reis (que é também Festa para os nossos Vizinhos do lado onde a economia anda tão má para o lado da plebe).

  7. Mandrakea 04 Jan 2010 as 23:13

    Ricardo, pode dar-me a sua visão da Reserva Federal Americana?

  8. [...] Depois afirmei que não acreditava que o BCE salvasse um Estado em apuros, até porque os seus estatutos o [...]