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Mar 19 2011

Guião para uma tragédia

Este é apenas um guião para uma tragédia. Para mais detalhes ver entrevista, dada na 5-feira, que saiu hoje, sábado, no “Jornal i”.
1 º Acto
O Primeiro Ministro sabe que não há condições para sair do atoleiro sem ajuda externa. As razões podem ser internas —execução orçamental, por exemplo— ou externas —a Chanceler alemã não está para o aturar mais.
2º Acto
Reunião com o ministro adjunto com a seguinte ordem de trabalhos: como sair desta? Como culpar a oposição da derrota de pedir ajuda externa?
Depois de matutarem, decidem: encostar a oposição à parede com propostas que sabem de antemão inaceitáveis e colocadas de forma afrontosa, para que a resposta imediata só passa ser claramente negativa. Dizer que a proposta é necessária e irrecusável para não haver pedido de ajuda externa.
Há necessidade de colocar o Presidente da República mal disposto com o Governo, por isso fazer a afronta de nem o informar. O mesmo se passará com o Parlamento.

3º Acto
A oposição (com ou sem ingenuidade) dá um rotundo “não”, porque foram confrontados com factos consumados e com medidas que no passado recente tinham sido afastadas em acordo anterior.

4º Acto
Com ar seráfico o Governo e o Primeiro Ministro diz (só depois da negativa formal e reafirmada da oposição) que a proposta passa a ser negociável.
Mais afirma que se houver crise governamental (crise política, na linguagem do Governo) a culpa é da oposição que não quiz negociar.

5º Acto
As medidas —indevidamente chamadas PEC-4— são chumbadas no Parlamneto e o Governo diz não tem condições para governar e demite-se.
O Presidente, face aos factos, anuncia a dissolução do Parlamento e eleições antecipadas nos prazos constitucionais.

6º Acto
Saem os dados da execução orçamental do ano anterior em que a situção é muito pior que o Governo tinha, dois meses antes, anunciado. Alternativa ou cumulativamente, a Chanceler alemã diz publicamente que está farta do País em causa.
Os mercados (ou seja, os credores do País) perdem a paciência e deixam um leilão de dívida “seco” e o País tem de pedir auxílio externo (Fundo Europeu ou FMI).

7º Acto
O partido do Governo acabado de cair culpa a oposição pela necessidade da ajuda externa. O Povo fica confuso e desconfia de todos os políticos.
8º Acto
Notícias de grande descontentamento popular, populismo a dominar a discussão política e movimentos não democráticos de várias matizes a arrastarem multidões.
Deixar em suspenso quem vai ganhar as eleições.

12 comentários até agora

12 Comentários para “Guião para uma tragédia”

  1. PMPa 19 Mar 2011 as 18:04

    Então o que deve fazer a oposição ?

  2. PuLPULa 19 Mar 2011 as 21:54

    Movimentos não democráticos de várias cores que não as partidárias

    porque supostamente esses mecanismos de compadrio e corrupção

    são democráticos

    e as turbas são contra a vera gente

    que sois vós?

    é um discurso um poucochinho assi comássi

    hermético?

  3. PuLPULa 19 Mar 2011 as 21:55

    é que com 8 assaltos mais parece um combate de boxe

    do que uma peça de teatro

  4. jorge bravoa 20 Mar 2011 as 10:08

    Então o que fazer a oposição?

    Com o risco de repetir o que já foi dito por muitos:

    Fazer TUDO com Muito Sentido de Estado e para Portugal e os Portugueses.

    1- Establecer Acordo para Governar de base alargada e estável:

    Exemplo PSD+CDS+Independentes da area PS + independentes, se não for impossivel fazer um Bloco Central + CDS + independentes.

    DEVE ser constituido por personalidades crediveis e de competencia reconhecida.( Fazer como nas empresas: ir buscar quem for melhor e é preciso, e com o acordo que for preciso)

    2- Apresentar essa coligação de forma formal ao País e SIMULTANEAMENTE

    3- Apresentar ao País:

    3.1-Governo Sombra

    3.2-Pré- Programa de Governo

    Já com linhas programáticas Económicas e Desenvolvimento / Recuperação claras e calendarizadas (Plano de Fomento para a Recuperação e Plano de Fomento para o Desenvolvimento)

    Explicar logo aqui porque é necessário O BCE+FMI (credebilidade e juros mais baixos)

    3- Colocar uma moção de censura e forçar eleições.

    4- Governar Competente e Assertivamente para Portugal e os Portugueses

    5- Propor para a proxima Legislatura, uma Reforma Constitucional com redução do nº de deputados, e eleição nominal dos mesmos (à Inglêsa)

  5. Jose Lapalicea 20 Mar 2011 as 13:04

    O Guião para a tragicomédia a que assistimos está em traços gerais, excepto talvez na colocação da frase “o povo fica confuso e desconfia de todos os partidos políticos”, que não deve estar no 7º acto mas sim no preâmbulo.
    Mais uma vez relembro a posição de todos os partidos sobre a lei de financiamento de partidos, onde todos defendem maior aumento das contribuições em numerário. Ou vermos altíssimos representantes políticos à porta de tribunais a dizerem que é normal enquanto responsáveis políticos ou empresariais aceitarem prendas. Com esta matriz de valores, como não pode haver terreno fertil para descontentamento??

    Mas acima de tudo, o que o Povo não vê é nenhuma discussão séria sobre onde cortar despesa do Estado. Grande parte da elite anda já desde 2008 (quando esta situação se agudizou ainda mais) com paninhos quentes a acreditar em milagres de que este centrão (PS e PS-D) nos irão governar sem que sejam precisos grandes sacrifícios. É triste que não haja mais discussão sobre onde cortar despesa de forma a garantir a sustentabilidade das nossas finanças públicas e possibilitar que se possa pensar que algum dia não iremos andar só a trabalhar para este enorme sorvedouro de recursos. Quem é que em Portugal de forma pública se atreve a falar dos enormes benefícios que esta geração do 25 de Abril criou para eles próprios??? À excepção de um Cantiga Esteves ou Medina Carreira (a quem silenciaram), muito poucos.

    E cortar despesa não é ir às reformas de miséria. É sim acabar com o 14º mês de reforma para quem ganhe mais de dois salários mínimos da mesma. É acabar com progressões automáticas de carreiras. É recalcular aquelas reformas absurdas calculadas com base só no último salário (e onde a pessoa ganha mais do que quando estava a trabalhar). É reduzir drasticamente os institutos e fundações. É acabar com parcerias público privadas. Reduzir o incentivo ao não-trabalho com o rendimento mínimo garantido (substitua-se esse rendimento por oferta em géneros p.ex.).
    Há algum partido que fale disto abertamente? Não me parece. Daí haver o espaço mais que suficiente para o descontentamento. E encontrar políticos simultaneamente competentes, com experiência e credíveis em Portugal acho muito difícil. Sinceramente julgo que temos de apostar mais em pessoas com pouca experiência no ramo mas que sejam bons profissionais e credíveis.

  6. jorge bravoa 20 Mar 2011 as 14:17

    Meu caro JL, ora já temos um inicio de proposta, agora só falta mais contributos!

    Os nossos Economistas devem ter mais valentes nomes, mas o principal é quem Lidera esta Coligação, tem que ter capacidades para Liderar Equipas Dificeis.

    A Equipa Governativa, (ministros e Sectretários de estado) tem que ser composta por especialistas de alto e reconhecido valor já com experiencia em cada sector e reconhecidos pelos sus pares.

    Para isso, tem que ser um Gestor com capacidade politica e diplomática, com conhecimentos sólidos de economia e muito pragmático*.

    Já olharam se há algum gestor de Empresa Privada de Grande Dimensão com estas caracteristicas?

    Depois até pode ser o Prof. Medina Carreira para a Economia e Finanças, é que ele mesmo adoentado não é nada fácil de feitio, é questão de o convidar, quem tenta convecê-lo?

    Numa equipa desta os “Novos com Pouca Experiência” têm lugar (até para irem ganhando experiência), mas noutras posições, pois não há tempo, para ir por tentativa e erro.

    É difícil, é, vai ser duro vai, mas não é impossivel, é preciso planear, motivar e executar, antes de mais acreditar e começar.

    ** “É mais importante fazer a coisa que deve ser feita do que fazer as coisas como devem ser feitas”, Peter Drucker; porque “As pessoas intuitivas tendem a agir antes de pensarem, quando pensam; as pessoas analíticas pensam antes de agir, quando agem” P.F.Wade.

  7. P.Pereira - PMPa 20 Mar 2011 as 15:46

    Muito bem JB e JL, precisamos de cortar no monstro despesista e não nos serviços sociais.

    Continuo a dizer que enquanto os nossos principais economistas profissionais (os mais mediáticos, os professores universitários) continuarem a bater na tecla dos deficits publicos (o mais fácil) e não avançarem com propostas estruturadas para o desenvolvimento económico (politicas industriais e agricolas) não vamos lá.

    Os politicos têm de ser condicionados pelas elites sócio-culturais de um país, pois em geral não têm ideias estruturadas sobre o país, são antes executores de ideias que após um periodo de maturação passam a ser uma aspiração da sociedade.

    O debate politico-economico continua muito enviesado e centrado apenas entre o despesismo do estado e o neo-liberalismo ilusório dos mercados racionais e eficientes.

  8. CãoPinchaa 20 Mar 2011 as 17:57

    Pode ser que vos interesse também ler o poste PEC e PAP publicado hoje pelo nosso grupo.
    compincha.wordpress.com

  9. jorge bravoa 21 Mar 2011 as 14:53

    Gostava de ler mais Ideias!

  10. jorge bravoa 21 Mar 2011 as 21:14

    Então?

  11. ricardo saramagoa 21 Mar 2011 as 22:32

    Se das próximas eleições não resultar um governo, com capacidade de governar, e de realizar o programa de ajustamento estrutural de que Portugal precisa, será o fim deste regime político.
    Imaginem um governo fraco, sem maioria, com o PS ressabiado na oposição, o FMI e a UE a imporem medidas draconianas, o parlamento em chicana político/mediática, a economia em descalabro, o Estado insolvente.
    Estaremos então maduros para um qualquer Perón ou Hugo Chavez.

  12. JSa 21 Mar 2011 as 23:00

    É oficial. O Professor Teixeira dos Santos declarou-se eterno Ministro das Finanças. É assim mesmo. Grande voluntário. Pelo menos fica resolvido um dos problemas do próximo PM, lá para o Acto vigésimo terceiro.