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Jul 11 2011

ALGUÉM ME AJUDA?

Publicado por VB a 20:55 em Artigos Gerais

Quando as políticas orçamentais estão, praticamente todas, em contracção, o BCE resolve subir as taxas de juro, tornando a política monetária também contraccionista. É provável que eu ande uns manuais atrasado e por isso não entendo a lógica deste policy mix. Não sei mesmo se não cheguei a um chumbar algum aluno que apresentasse tal solução para um problema semelhante. Mas o BCE é a favor do sucesso da União Europeia, não é? Então tenho que ir estudar melhor. Alguém recomenda um manual de Economia moderna, onde eu possa aprender o que se está a passar?

Também posso estar tranquilo porque não foi a subida dos juros pelo BCE que desencadeou este novo agravamento da crise financeira, não é verdade?

A propósito, alguém se lembra quando foi a última vez que o BCE subiu as taxas de juro? (Oops, pergunta errada…)

31 comentários até agora

31 Comentários para “ALGUÉM ME AJUDA?”

  1. PMPa 11 Jul 2011 as 21:12

    Eu lembro-me quando o BCE subiu os juros em Junho ou Julho de 2008 quando o FED dos EUA já tinha descido as taxas imenso.
    Em finais de Setembro o Lehman falia e a partir daí foi o abismo.
    .
    O BCE está dominado por uma ideologia destrutiva, a ideologia do sound-money.
    .
    Estamos entregues à bicharada !

  2. João Henriquesa 11 Jul 2011 as 22:00

    Bom, ainda muito liberais andam eles, qualquer dia teremos o regresso ao padrão ouro e assim o cumprimento cabal do sonho de virtude monetária de alguns banqueiros centrais europeus.

    E já agora um oldie… http://krugman.blogs.nytimes.com/2011/06/15/one-size-fits-one-redux-wonkish/

    J

  3. fvroxoa 11 Jul 2011 as 22:31

    Oh, inclemência! Oh, martírio! Estará porventura periclitante a vida desse BCE que tantos ajudaram a criar?!

  4. Paulo Sáa 11 Jul 2011 as 22:42

    E o mais incrível é que isto parece ser o inicio de um ciclo de subidas.
    Onde está a inflação?

  5. PMPa 11 Jul 2011 as 22:44

    Esse comentário é para se perceber ?

  6. José Sousa e Silvaa 11 Jul 2011 as 22:53

    Pois eu prefiro aquela discussão académica, que está na moda e me faz rir, que é a de umas senhoras que se dizem feministas mas que não sabem português, andarem a chamar Presidenta a uma tal senhora quando teriam de chamar Presidento a todos os senhores Presidentes.
    Por isso considero esta “estória” do dito BCE tão estúpida (para não ser inconveniente e chamar-lhe incompetente) que nem sequer dá para rir porquanto, pensando bem, talvez dê sim mas para chorar, e dessa forma contribuir para debelar as crises financeiras, económicas e sociais ajudando as economias europeias a dar o tão necessário passo em frente acabam por lhes calçar os sapatos ao contrário e em vez de irem para Norte vão para Sul que é onde está o abismo e … zás, pumba, já está !!!
    E eu fico a pensar : mas afinal qual é o nosso papel ?
    Talvez tenhamos que passar o tempo a averiguar se há ou não petróleo no Beato, na Costa ou na Plataforma Continental – lá vem o Mar como Grande Desígnio Nacional !!!

  7. JP Santosa 12 Jul 2011 as 0:00

    O problema está em que existe uma grande divergência no comportamento das diferentes economia da zona euro e o BCE olha (apenas) para a “média”. EM méida o PIB da zona euro aumentou 0,8% no 1.º trimestre e a taxa de inflação está nos 2,7% (acima da referência de 2%) e os indicadores avançados (e.g. indicadores de sentimento económico e novas encomendas apontam para uma continuação da recuperação).
    O facto desta subida ser desajustada para as condições de muitos dos países da zona euro forçados a políticas orçamentais de grande austeridade revela, por um lado, as dimensão dos desafios à condução da polítcia monetária numa zona monetária não óptima sujeita a “choques” assimétricos e por outro o quanto o BCE se mantém – quanto a mim exageradamente – inteiramente focalizado naquilo que entende ser o seu mandato: evitar uma subida da inflação (média). (http://jopms.blogspot.com/2011/07/os-desafios-para-conducao-da-politica.html)

    PS: Permita-me que faça uma breve observação relativamente a algo que ouvi referir relativamente ao efeito de um aumento da procura na Alemanha sobre o ajustamento dos défices extermos no seio da zona euro. Admitindo como parece razoável pela experiência recente que a evolução da taxa de câmbio do euro face às restantes moedas assegura (aproximadamente) o equilíbrio da balança corrente da zona euro no seu conjunto, um aumento da procura na Alemanha iria conduzir a uma depreciação do euro (que iria compensar o efeito do aumento das importações alemãs do resto do mundo) e, em equilíbrio, a redução do superávite alemão iria corresponder à redução dos défice dos outros países da zona euro. O “preço” a pagar seria uma inflação mais elevada.

  8. Anunesa 12 Jul 2011 as 7:34

    A questão de fundo é saber se um Banco Central deve incluir nos seus objectivos de Politica Monetária elementos de crescimento económico ou não.
    O BCE, estatutáriamente encontra-se restringido ao objectivo de controle da inflação, ao contrário de alguns outros Bancos Centrais, nomeadamente o FED.
    Do ponto de vista estrito da relação Politica Monetária / inflação, a realidade é que o BCE está há já muito tempo a praticar taxas de juro reais negativas e, recentemente, mesmo a inflação “core” começou a dar claros sinais de aceleração. Deste ponto de vista julgo que pouco haverá a criticar o BCE. Não “mexeu” enquanto a inflação “core” não acelerou, e fê-lo quando isso começou a ser perceptivel.
    Talvez o que devesse ser amplamente discutido e, eventualmente, alterado, é o estatuto limitado da Politica Monetária que foi atribuido ao BCE. Principalmente numa zona monetária onde não existe Politica Fiscal coordenada e dirigida ao crescimento harmonioso e alargado da mesma.

  9. fvroxoa 12 Jul 2011 as 8:19

    Meu caro PMP
    Um comentário em temas complexos pode ser simples ou complexo.Com Humor ou com seriedade. Mas sempre com memória viva.Nem que seja de um filme antigo Portugues e cómico.Dos que faziam chorar.
    O tema do post é dramático e bem colocado.E o BCE neste drama é um repositório anedótico de como se pode errar contra as teorias e a favor das teorias económicas.Por falta de visão estrategica sobre a economia real de um novo espaço económico como foi o caso da UE e pós nova OMC . E pós agenda de Lisboa exótica e desfocada do Mundo.
    Com o muito bem refere ANunes, nesta economia financeira de extremos criativos e gananciosos, e no caso Europeu tem de se clarificar se o BCE tem algum sentido ter um estatuto tão limitado.Não havendo um Ministerio das Finanças Europeu.
    De resto o problema do Euro é uma questão bem mais complexa do que apenas dizer “liquide-se”. As Guerras Mundiais começaram por menos.Objectivamente falando.
    Cumprimentos Roxos.

  10. PMPa 12 Jul 2011 as 8:23

    A estupidez dos politicos europeus continua.
    .
    Reunião do Eurogrupo de ontem não teve resultados .
    .
    A maior parte dos economistas e politicos continua a não entender que uma moeda única sem divida única é impossivel .
    .

  11. VBa 12 Jul 2011 as 8:41

    Caro JP Santos,
    Obrigado por recentrar, num tom mais sério, um tema que iniciei num tom talvez demasiado irónico para a sua importância (agradecimento extensivo a Anunes).

    Eu percebo – é dos livros e é isso que eu ensino – que a política monetária de uma união monetária é orientada para o “estado geral” (a “média”, como refere) e não para os casos particulares. O que já não percebo – ou, melhor dizendo, o que discordo – é que o “estado geral” seja avaliado, nas actuais circunstâncias, apenas com base nos indicadores “habituais” (ou de manual). Embora o “core” da zona euro esteja estável e aparentemente robusto, apesar de os sistemas bancários estarem expostos à “crise da periferia”. Esta, porém, tem um elevado potencial desestabilizador de toda a zona. A “periferia” vive uma situação financeira altamente instável, praticamente sem acesso aos mercados financeiros (incluindo o monetário), e está num processo de ajustamento recessivo, em simultâneo, que pode facilmente descambar numa espiral depressiva. O potencial de contágio à sua volta é enorme, não sendo de excluir que toda a zona euro venha a se afectada por uma debacle financeira (de que o que se passou ontem e parece continuar hoje pode ser um sinal). Neste contexto, considerar a inflação como um problema preocupante parece-me, no mínimo, irrealista. E, por isso, a memória de 2008, com o BCE a subir taxas na véspera do maior desmoronamento financeiro das últimas décadas, não pode deixar de vir à memória. Tanto mais que a inflação (moderada) poderia ser, na minha opinião (que admito discutível) e tal como escrevi no Nó Cego, até pode ser um ingrediente facilitador da correcção dos desequilíbrios intra-euro.

    Quanto ao seu “PS”, o aumento da procura da Alemanha provoca um aumento da sua taxa de câmbio real (é por isso que deverá reduzir o seu excedente externo; v.g. modelo Mundell-Fleming), seja por inflação, seja por aumento da taxa de câmbio nominal (neste caso do euro). Se o ajustamento “cambial” for via euro, o benefício irá quase exclusivamente para países terceiros; se for via inflação (e, na medida em que não contagie o resto da zona, i.e. se for apenas via preço relativo da Alemanha), beneficiará o “Resto do Mundo”, incluindo o resto da zona euro. Mas, mesmo neste caso, os principais (embora não únicos) beneficiados serão aqueles que já dispõem de economias competitivas.

  12. Carlos Meloa 12 Jul 2011 as 9:44

    Á Alemanha não está a contrair.
    Portugal está, mas não parece (com a inflação em 3.7% não percebo a contração).
    Por isso não admira que o BCE (que confunde frequentemente a zona euro com a Alemanha) aumente o preço do dinheiro.
    Há uma clara tendência inflacionista na zona euro que o BCE pretende contrariar. Pouco lhe importa que um ou outro país dessa zona (Portugal, Grécia, …) estejam em dificuldades, pois o BCE age em função do todo e o todo são principalmente a Alemanha, e por vezes a França, também.

  13. Pedro S.a 12 Jul 2011 as 10:11

    Como diz o JPSantos o BCE faz lembrar um “presidento” (com todo o respeito que merece uma democracia) que tem uma visão demasiada estreita do seu mandato. Passará pelos pingos da chuva, enquanto ao lado se abate a tempestade perfeita!

    Ainda podemos usar o remanescente do papel moeda denominado em escudos?

  14. Pedro S.a 12 Jul 2011 as 10:18

    Derivando o assunto para as questões Europeias, que enorme retrocesso para a Europa o tratado de Lisboa, o reforço do conselho e este anchluss Germanófilo que destrói o espírito Europeu.

  15. Pedro S.a 12 Jul 2011 as 10:34

    «A Europa continua muito profícua em palavras e muito escassa em atos concretos. Tem muitas dificuldades em gerar convergências e consensos no próprio seio da União Europeia e ainda tem outra característica: reage em vez de agir preventivamente e antecipadamente. Espero que as palavras do presidente da Comissão Europeia sejam de algum modo um pronúncio de que isso se vai alterar mas, já se perdeu muito tempo efectivamente».

    Estas palavras avisadas de B.Félix situam o problema Europeu na sua verdadeira dimensão: a dimensão política.

  16. Paulo Sáa 12 Jul 2011 as 11:05

    Be carefull for what you wish for.
    Será que queremos mesmo que exista um ministro das finanças europeu?

    Já sei que formalmente a nossa política fiscal está dirigida do exterior, mas espero que seja temporariamente.

  17. PMPa 12 Jul 2011 as 11:07

    Os adeptos do “sound-money” preferem a destruição dos países um a um que abdicar da sua ideologia.
    .
    A criação deste EURO foi uma vitória dessa gente.

  18. Pedro S.a 12 Jul 2011 as 11:14

    PMP

    Esse é o problema basilar e assim andaremos aqui a reboque de medidas pontuais sem concertar uma verdadeira visão estratégica. Urge a criação de um verdadeiro scorecard estratégico, sem os medos, os interessentes egoístas e as reverências pouco corajosas que sentimos na Europa.
    Quando a Merkel verga Durão com o peso da “marca” Deustchsland forever, Durão e os restantes políticos Europeus têm de perceber de que massa são feitos os verdadeiros estadistas Europeus.

  19. JP Santosa 12 Jul 2011 as 11:17

    Caro VB,

    Estou inteiramente de acordo com a sua avaliação da política monetária do BCE.
    Quanto ao “meu PS” e pedindo desculpa por insistir e agradecendo a sua paciência permita-me que desenvolva um pouco o meu raciocinio. Um aumento da procura da Alemanha iria implicar um aumento das importações deste país quer dirigidas ao resto da zona euro quer a países terceiros, cujo impacto será um aumento da procura na zona euro que tenderá a fazer subir a inflação média na zona euro mas que terá especial incidência na Alemanha (e.g. via subida dos preços dos não transaccionáveis na Alemanha). O resultado final tenderia a ser uma apreciação real do euro face Às outras moedas que restabeleceria o equilíbrio da balança corrente da zona euro mas também uma depreciação real relativa dos outros países da zona euro face à Alemanha que, pelo menos, ajudaria a corrigir os desequilibrios internos na zona euro. No curto prazo os efeitos tenderia a ser uma subida das taxas de juro e uma apreciação do euro, mas esse efeito poderia ser anulado por uma política monetária expansionista do BCE que mantivesse a taxa de juro baixa.

  20. PMPa 12 Jul 2011 as 11:32

    Então alguém pode acreditar que se a generalidades dos países europeus reduzir a despesa pública sincronizadamente pode haver crescimento económico ?
    .
    Vamos todos exportar para onde ?
    .
    Sem crescimento económico como vamos poder pagar a divida e os juros ?
    .
    Então o BCE aumenta os juros de forma a eliminar a única forma de reduzir a divida quando não há crescimento, e que é a inflação.
    .
    E será que com o aumento do desemprego a despesa pública não terá tendência a aumentar ?.
    .
    Será que o Vitor Constâncio votou a favor deste aumento de juros ?
    E os outros membros do BCE da Grécia, Irlanda, Espanha e Itália, votaram a favor ?
    .

  21. VBa 12 Jul 2011 as 14:17

    Caro JP Santos,

    Na medida em que o ajustamento da taxa de câmbio real da Alemanha envolvesse apreciação da taxa nominal do euro – e a dimensão da economia alemã provavelmente levaria a esse resultado – o ganho de competitividade dos países fora do euro seria maior do que o ganho dos países dentro do euro, pelo que é muito provável que os primeiros beneficiassem mais do estímulo do que os segundos.
    Quanto a contar com o BCE, o tema do post fala por si…
    Julgo que, para ganhar competitividade só nos restam dois caminhos como também deixou muito claro Olivier Blanchard, num artigo de 2006: a) um sustentável aumento da produtividade – o que leva (muito) tempo a ser alcançado; b) redução dos custos laborais (Cf. Blanchard, 2006, Adjustment within the euro. The difficult case of Portugal).

    Caro Pedro S.

    Eu percebo o seu ponto da abordagem holística, mas do ponto de vista prático essa abordagem ajuda muito pouco, porque nós não temos capacidade de lidar com toda a gama de problemas ao mesmo tempo. Eu acredito mais na abordagem dos consultores: “Qual é a melhor maneira de comer um elefante (ou cavalo, ou baleia, ou qualquer outro animal de grande porte)? É às postas!”…

    Caro PMP,

    Resta-nos a esperança de que às autoridades europeias se possa vir a aplicar o que Churchill dizia dos americanos, que se poderia sempre contar que eles acabariam por fazer o que era necessário… depois de terem esgotado todas as outras opções…

  22. Anunesa 12 Jul 2011 as 21:46

    Há dias vi uma noticia de que um vilarejo em Espanha tinha reintroduzido, como moeda alternativa de uso comum, a Peseta.
    A lógica assentou no conhecimento de que, em Espanha, muitos milhões de Pesetas nunca chegaram a ser trocadas por Euros e “jazem” nas gavetas de muitos Espanhóis.
    Oferecendo a possibilidade de gastar essa Pesetas, devolvendo-lhe o seu valor, a autarquia em questão fez disparar o turismo e a procura dos bens e serviços da sua região, com impacto significativo na economia local.
    Uma vez que o Banco de Espanha ainda aceita Pesetas à troca, a autarquia apenas tem depois de prestar o serviço aos comerciantes locais de lhes trocar as Pesetas que aceitaram por Euros junto do BdE.
    Uma idéia “out of the box”, em tempos que precisam de idéias diferentes.
    E um bom local a visitar pelos saudosistas do “não Euro”. Pode ser que comecem por lá a aceitar também velhos Escudos, quem sabe?

  23. PMPa 13 Jul 2011 as 8:38

    Aqui está a confirmação :

    http://www.spiegel.de/international/europe/0,1518,773893,00.html

    For Euro Zone, It’s Euro Bonds or Else

    A share trader in Frankfurt. The euro debt crisis is escalating.
    Markets in Europe are being hit hard by fears that the debt crisis will spread to Italy, which is regarded as too big to rescue. German media commentators say the time has come to stop the piecemeal bailout efforts and to make the member states share liability for their debt — via euro bonds.

  24. Paulo Sandea 13 Jul 2011 as 8:54

    Caros
    Permitam-me três considerações rápidas (naturalmente, contra-corrente, mas a isso já estou habituado):
    - Têm quase todos razão, a começar pelo texto seminal do Vítor. O problema é complexo e se fosse fácil já há muito estava resolvido. Mas o problema é cada vez mais político e menos “económico”, sobretudo de discussão teórica; “its the politic stupid”, escreveu a Teresa de Sousa esta semana; e o problema político resolve-se com decisões políticas extremamente complexas, com implicações no plano das soberanias nacionais, alterações constitucionais, implicações em termos eleitorais, etc etc etc.
    - Ou seja, segunda observação, não há milagres. A União tem de dar um passo em frente na sua integração, criando mecanismos efectivos de solidariedade, reforçando a coesão, a supervisão mútua, a dimensão económica da sua actividade; os Estados-membros, todos eles, têm, simplesmente, de considerar efectivamente “as suas políticas económicas uma questão de interesse comum e coordená-las” no seio das instituições europeias. Sabem onde é que isto está escrito? No artigo 121º do Tratado de Lisboa! (e de facto já vem de trás, desde 1992, coisa que ninguém diz). Mas o que é certo – e como aliás referiu bem ontem a Maria João Rodrigues – é que a União já fez mais no último ano do que desde a criação do Tratado de Maastricht, base jurídica e política para a criação da zona monetária. Ainda é pouco, ainda é insuficiente, mas é mais do que muitos – quase todos – os comentadores consideravam possível ainda há um ano! Ou seja, é preciso tempo. Ainda esta semana e ao contrário do que escreveu tanta gente, foram tomadas decisões muito difíceis mas que representam um efectivo avanço nesta direcção.
    - A questão em si (o aumento da taxa de juro neste momento) tem também uma resposta complexa: claro que é um erro, considerado o bem comum europeu, o problema é que ainda não fomos capazes de gerir a União tendo em conta esse bem comum (vide artigo 121º e o seu incumprimento). Mas o BCE faz o seu trabalho, aquele para que foi criado e nisso tem sido extraodinariamente bem sucedido: combater a inflação. O Tratado – a lei europeia – é bem claro: a inflação é o grande objectivo (artigo 127º: “O objectivo primordial do Sistema Europeu de Bancos Centrais, adiante designado “SEBC”, é a manutenção da estabilidade dos preços”). Nisso, o sucesso é indiscutível (2001-2011: a inflação teria de ser contida abaixo dos 2% no conjunto da União, ficou nos 1,97% mais coisa menos coisa). E a moeda única é hoje uma moeda de referência no Mundo.
    Se calhar é má ideia colocar o BCE na raiz do problema.
    O problema é saber se os Estados europeus querem resolver esta crise, que seria sempre inevitável face ao excesso de crédito e à má utilização dos recursos – e Portugal já viveu suficientes situações destas para o saber -, através de uma solução comum, criando os mecanismos adequados, ou se prefere o regresso a uma espécie de autarcia em que será cada um por si, à antiga (uma antiga bastante recente e cujos resultados o século XX bem evidencia).
    É simples e é mesmo assim, desta vez não há meio termo. O problema é político (mas isso acho que já disse).
    Ficou maior do que esperava, desculpem, mas o assunto é complexo. Abraço a todos

  25. PMPa 13 Jul 2011 as 9:24

    Os membros do conselho de administração do BCE são incompetentes, não vale a pena desculpá-los.
    .
    Nada os obrigou a aumentar os juros neste momento. Só a sua obsessão ideológica. A inflação está baixa, não há perigo nenhum de instabilidade dos preços. O BCE nada pode fazer contra a alta do preço do petróleo.
    .
    Basta ver e ler as declarações de ontem do ministro das finanças alemão para verificar a teimosia ignorante que vigora na zona EURO.
    .
    Como votou o Vitor Constâncio, o irlandês, o grego, o espanhol e o italiano ?

  26. Pedro S.a 13 Jul 2011 as 11:28

    Fazendo aqui o recentramento no essencial, o Paulo Sande pôs o “penso” no lugar da ferida: na questão política que não é independente da questão dos interesses. Estando já 40% dos Portugueses em pobreza sem medidas sociais e soluções não ortodoxas/holísticas que assentem a recuperação nacional na motivação e salvação de todos os seus cidadãos (já nem tanto para erguer mas para soerguer), já só o artigo 121 nos pode valer (e a solução é mais Europeia que Portuguesa).
    O artigo 121 do Tratado de Lisboa – decorrência redundante da própria criação da UE – sabendo nós já que não existia Europa sem isto: “criando mecanismos efectivos de solidariedade, reforçando a coesão, a supervisão mútua, a dimensão económica da sua actividade”, o que não invalida que o aparente (pelo menos à distância dos muros) reforço do Conselho tenha aumentado a percepção pelos cidadãos de se estar em “plena desintegração Europeia”.

    E é por isso que já muitos dizem que isto já não lá vai sem uma resposta Europeia, holística, numa outra dimensão que não relevada exclusivamente da teoria económica. Comer o animal às postas já não trás saúde, senão passageira, aos cordeiros que pastam com outros cordeiros ao lado dos lobos.
    Para os que gostam de história Europeia, a realidade, no entanto, é que já assistimos a alguns tempos de fio da navalha. Feridas que são resolvidas quando todos se apercebem que os prejuízos se avolumam fora do todo – ou que o todo é portador de maiores benefícios.

  27. Anunesa 13 Jul 2011 as 20:43

    Factos (Fonte:Eurostat):
    1) Durante meses sem fim o BCE tem mantido uma taxa de juro real negativa superior a 1 p.p., apesar da economia da Zona Euro estar a crescer e a inflação estar substancialmente acima do seu target de politica de <2%;
    2) A partir de Março, e em apenas 2 meses (aguarda-se os dados de Maio, mas que o BCE certamente já possui) a Core inflation disparou 60% na Zona Euro.
    Se não é a hora de começar a subir taxas então é quando?
    Será que é quando "nos der jeito"?
    Nesse caso sugiro um movimento espontâneo de cidadania para alterar os estatutos do BCE e obrigar a sua politica monetária a ter como objectivo … o sempre esfalfado PIB Português…

  28. PMPa 13 Jul 2011 as 21:40

    O que é que interessa que a taxa de juro real seja negativa quando estamos numa crise económica e financeira ?

    Não é preciso alterar estatutos nenhuns, basta a sua interpretação global e não ideológica, dogmática ou ignorante dos restantes parâmetros macro-económicos como o desemprego.

    A core inflation em dois trimestres não quer dizer nada, quando é provocada pelo subida do petroleo que é externa à U.E.

    Não existe subida de salários , o BCE é incompetente porque não percebe a diferença entre inflações com causas diferentes.

    Estamos a gastar demasiado dinheiro em BCE’s e Bancos Centrais.

    Metade dessa gente com metade dos salários era suficiente.

  29. Rui Romãoa 14 Jul 2011 as 17:06

    Gosto muito de ler este blogue. O melhor que posso dizer, é que não tendo formação economica ou financeira vou conseguindo entender alguns acontecimentos que vão acontecendo em Portugal e na UE.
    Mas, existem muitas “coisas” que não entendo. Julgo que em Portugal dizem-se demasiadas generalidades. Liga-se a televisão e não há comentador, mais ou menos letrado que não mencione palavras como “modelo de desenvolvimento”, “sustentabilidade”, “inovação”, “tecnologia” entre outras…mas para meu espanto dai não passam! Ora, pergunto eu : Como ? Quando ? Onde ? Porquê? A estas questões não encontro resposta. Isto de jogar bonito interessa pouco, temos mesmo é de meter golos…e isso não vejo.
    Outro aspecto que me espanta é aquilo a que chamam “modelo de desenvolvimento”. Ora até parece que o “modelo de desenvolvimento” pode ser anunciado por decreto. Se assim for, pergunto eu, quem seria o criminoso que decretou que Portugal se iria especializar em industrias de baixo calor acrescentado ?
    Julgo que o principal problema de Portugal é não ter uma estrategia de desenvolvimento.
    Quando me pergunto :
    “Que valor pode Portugal oferecer ao Mundo?” A resposta é um deserto. E isso sim preocupa-me. As empresas de base tecnologica existentes são uma gota de agua neste deserto em que vivemos.

  30. PMPa 17 Jul 2011 as 13:20

    http://economia.publico.pt/Noticia/klaus-regling-resgate-da-divida-de-portugal-tem-sido-favoravel-a-alemanha_1503371

  31. ata 18 Jul 2011 as 13:26

    Deixo aqui um interessante contributo para esta discussão:
    https://www.project-syndicate.org/commentary/roubini40/English

    “Finally, the eurozone needs policies to restart economic growth on its periphery. Without growth, any austerity and reform will deliver only social unrest and the constant threat of a political backlash, without restoring debt sustainability. To revive growth, the ECB needs to stop raising interest rates and reverse course. The eurozone should also pursue a policy – partially via looser monetary policy – that weakens the value of the euro significantly and restores the periphery’s competitiveness. And Germany should delay its austerity plan, as the last thing that the eurozone needs is a massive fiscal drag.
    The eurozone’s current muddle-through approach is an unstable disequilibrium: kicking the can down the road, and throwing good money after bad, will not work. Either the eurozone moves toward a different equilibrium – greater economic, fiscal, and political integration, with policies that restore growth and competitiveness, including orderly debt restructurings and a weaker euro – or it will end up with disorderly defaults, banking crises, and eventually a break-up of the monetary union.
    The status quo is no longer sustainable. Only a comprehensive strategy can rescue the eurozone now.”