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Jul 18 2011

JUSTIÇA E CONVENIÊNCIA

Publicado por VB a 10:26 em Artigos Gerais

Uma das coisas que aprendemos com as crises é que as soluções justas – punindo aqueles cujo comportamento desregrado contribuiu para o resultado e preservando os que se comportaram prudentemente – nem sempre são as mais convenientes. A prudente formiga acaba sempre por pagar a maior parte da factura do irresponsável comportamento da cigarra. A alternativa seria a morte da cigarra, mas, nesse caso, a lição não serviria de nada e a vida, no seu geral, ficaria empobrecida com a perda de uma espécie (que há-de ter qualquer utilidade no equilíbrio natural…).

Enfim, o ponto que quero fazer é que a intenção de envolver os privados na resolução das dívidas soberanas, sendo uma solução justa – como já tenho argumentado – acabará por ser, muito provavelmente, uma solução contraproducente (sobretudo para os países periféricos”). O “envolvimento dos privados” – ou seja, a renegociação das dívidas, como muitos defendem – traduzir-se-á inevitavelmente na assunção de perdas pelos actuais credores, seja, por redução dos valores a reembolsar, seja pela redução dos juros, seja pela extensão dos prazos.

Tais perdas, seja qual for o eufemismo com que as queiram envolver, constituirão sempre um incumprimento, ainda que parcial, das condições contratadas e obrigarão, quase certamente, as agências de rating a tratá-las como tal, reflectindo a sua perspectiva nos ratings, não apenas dos países que já estão actualmente em processos de assistência, mas de todos os outros que apresentem situações financeiras de duvidosa sustentabilidade. O substancial downgrade da Itália e de Espanha tornar-se-á muito provável, desencadeando uma espiral de consequências dificilmente controláveis e das quais não é nada seguro que o euro consiga resistir intacto.

Por outro lado e mesmo que o referido acima conseguisse ser atenuado e a situação controlada nos seus efeitos mais imediatos, persistirá sempre uma consequência mais gravosa, sobretudo para os chamados “periféricos”. Tornando-se real a perspectiva de incumprimento de Estados da zona euro, as taxas de juro dos países mais frágeis passarão a reflectir, duradouramente, spreads consideráveis face aos países core da zona euro. Passaremos, então, a ter uma união monetária definitivamente em dois tiers, separados por taxas de financiamento substancialmente diferentes. Como essa diferença dificilmente poderá ser compensada com qualquer outra vantagem, não levará muito tempo até que os países do segundo tier comecem a duvidar da utilidade de se manterem ligados pela mesma moeda aos do primeiro tier

Concluindo: a solução é justa, mas poderá revelar-se inconveniente, porquanto as suas consequência podem tornar-se indesejáveis

7 comentários até agora

7 Comentários para “JUSTIÇA E CONVENIÊNCIA”

  1. Paulo Correiaa 18 Jul 2011 as 11:14

    Os privados, a nível europeu, não têm feito muito mais do que «mamar» nos estados.
    A indústria automóvel, por exemplo, onde os incentivos ao abate (ou medidas iguais disfarçadas de incentivos ecológicos) não foram mais que subsidios indirectos a uma indústria moribunda.
    E os palhaços dos banqueiros que armados em inteligentes «torraram» o dinheiro que os estados tiveram que lhe devolver.
    E os «competentes» políticos que para vender mais uns mercedes e BMW aos chineses deixam que tudo o que é indústria fuja para lá.
    E a construção civil e obras públicas… e os subornos para vender submarinos (Portugal e Grécia)…
    Haja morl e verdade no que se diz…

  2. Pedro S.a 18 Jul 2011 as 12:56

    Artigo muito interessante onde justiça e conveniência poderiam assumir facilmente a forma de orgulho e preconceito. Orgulho de quem se vendo numa situação cuja responsabilidade não lhe pode ser inteiramente assacada, sente o preconceito de quem quer viver na zona Euro nos patamares máximos da maximização de benefícios sem pagar a quem lhe alegra a vida. Os benefícios, para uns, penalidade para outros, chegam aos nossos ouvidos pelo brilhante canto da cigarra: «Até hoje, só houve ganhos para os alemães, porque recebemos da Irlanda e de Portugal juros acima dos refinanciamentos que fizemos, e a diferença reverte a favor do orçamento alemão», garantiu Regling. Adiantou também: «é o prémio pelas garantias que a Alemanha, dá, só que os contribuintes alemães não acreditam». Afinal, à laboriosa formiga também não lhe ficava mal conhecer o poder motivador do encanto da cigarra.

  3. PMPa 18 Jul 2011 as 14:39

    Claro que o Vitor bento tem razão:
    - o problema principal numa restruturação da divida da Grécia será a analogia que os investidores /especuladores vão fazer com a Espanha e Itália, fazendo subir os juros e obrigando as agencias de rating a baixar o rating desses paíse, acelarando co ciclo vicioso.
    Isso vai fazer com que este sistema monetário do EURO acabe em poucos meses.
    .
    Os actuais lideres alemães são tão ignorantes que não entendem que uma das razões para os baixos juros da sua divida publica é que servem de refugio para a generalidade dos investidores, o que só acontece porque fazemos todos parte do EURO.
    .
    No caso de existirem EUROBONDs elas serão também refugio, o que manterá os seus juros baixos.
    .
    Enfim, os economistas criaram um EURO disfuncional, os politicos alemães teimam em não emendar o erro.

  4. PMPa 18 Jul 2011 as 21:45

    Mais uma evidência da asneira histórica que foi a criação e a adesão a este EURO exótico (ou estúpido para os mais exigentes ):

    os investidores estão atentos aos juros da dívida pública espanhola e italiana para verem se a maturidade a 10 anos se aproxima do nível que muitos apelidam de ponto de não retorno: os 7%. Hoje fecharam acima dos 6%.

    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=496565

  5. JP Santosa 19 Jul 2011 as 8:05

    Concordo em absoluto com o seu ponto. Mas gostaria de chamar a atenção para outro aspecto, admitindo que seja possível uma co-responsabilização do conjunto da Europa pela dívida dos chamados países periféricos o “preço a pagar” para que tal seja políticamente possível será não só uma forte condicionalidade dos programas mas também uma perda de soberania orçamental, o que além das questões de orgulho e honra nacional poderá ter um custo elevado em termos de utilização da política orçamental como estabilizador e levanta, ela própria, problemas políticos muito complicados.

  6. Pedro S.a 19 Jul 2011 as 9:07

    «Portagens na A28 roubaram 200 mil passageiros galegos ao aeroporto Francisco Sá Carneiro»

    Não acreditando obviamente em tudo o que a nossa comunicação social nos dá para evitar o trabalho de pesquisar e informar, não querendo estar a divergir muito da questão, vinha propor que se dê alguma atenção aos problemas de um ponto de vista mais micro. A notícia em cima é demonstrativa de como resolver esta questão imediata não será suficiente para a inflexão para um Portugal economicamente sustentável. A cada passo que damos no desfolhar económico de Portugal deparamo-nos com estas terríveis notícias de um país voltado para o desperdício da utilização dos recursos. Não estudar aprofundadamente as medidas que se tomam leva à notícia acima.
    E ele é os investimentos ruinosos em auto – estradas sem utilizadores, em aeroportos de planícies abertos 30 minutos por dia utilizando recursos infindos, ele é a concentração do comércio retalhista que mata a pequena economia familiar – mais criadora e distribuidora de sustentabilidade. Os problemas sendo económicos na dimensão da análise são na sua raiz, mais micro, mais problemas do foro da gestão. É no somatório da economia atomizada e não paternalizada que resolveremos os nossos problemas.
    Neste Portugal megalómano os pequenos problemas são sempre deixados para trás. Portugal têm uma tendência mórbida para atomizar os seus cidadãos, tornando-os pequenos Gasparzinhos predestinados. E no entanto, não se move.
    Se olharmos para as empresas públicas monopolistas, concluímos que o problema na sua raiz não é serem públicas, mas é serem pouco flexíveis, “caracóis” na tomada de decisões enquanto possíveis, mal geridas. A falta de flexibilidade laboral e de adaptação rápida ao momento, tem morto paulatinamente as empresas, parecendo não serem solucionáveis os seus problemas no quadro de uma economia com alguma poder de decisão nacional. Preocupamo-nos todos muito com decisões do foro macro, enquanto os agentes económicos definham. E a tendência do megalómano até no mundo das empresas replica. Preocupamo-nos com as grandes, empresas monopolistas ou sectores não transaccionáveis ou protegidos e esquecemo-nos invariavelmente das outras, das pequenas e médias, fora do quadro elitário ou do poder, daquelas que criam emprego, exportam e produzem valor interno menos deslocalizável. Rimo-nos das pequenas medidas não ortodoxas da Assunção Cristas, mas será no somatório de dezenas de milhar delas que nos poderemos alguma vez comparar ao racional das medidas dos povos do Norte.
    Fazia um repto ao painel. Que independentemente do bom serviço prestado à sociedade a pensar o problema macro do momento, se fizesse foco no porquê de Portugal não descolar como economia viável e sustentável.

  7. Carlos Meloa 19 Jul 2011 as 23:37

    “envolver os privados na resolução das dívidas soberanas” parece-me um eufemismo. Ou está-se a obrigar os credores a renegociarem a dívida dos países em dificuldade, ou a solicitar à banca que empreste meios financeiros a estes países para fazerem face a parte dos seus compromissos. Mas como estes são os credores, tudo se resume à primeira hipótese. Os credores vão ser obrigados a renegociarem a dívida, ou parte dela, com a Grécia em especial.
    Mas como o termo renogociar a dívida tem uma carga muito forte sobre os mercados, optou-se por “envolver os privados na resolução das dívidas soberanas”.
    Não tem nada de anormal. Segundo Álvaro Santos Pereira – actual ministro da economia – desde 1980 que ocorreram mais de 30 reestruturações de dívidas soberanas, sem que isso constituísse um “tsunami” económico, como parece estar a constituir-se a reestruturação da dívida grega.
    Não entendo a razão porque, sempre que ocorre qualquer problema na zona euro, mesmo que seja numa economia liliputiana, o mundo parecer vir abaixo. Fora dela nem merece referência. A não ser histórica, quando se pretende invocar um mau exemplo, como aconteceu com a Argentina.
    Alguém me explica?