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Set 05 2011

Uma agenda estratégica para o Talento em Portugal

Publicado por Carlos Sezoes a 12:01 em Artigos Gerais

Educação, formação, competências, qualificações, conhecimento…Talento. Nunca como hoje se falou tanto nos conceitos inerentes ao desenvolvimento humano. Com efeito, a consciência de que estes são “activos” de importância estratégica em qualquer sociedade, tem levado a que, de uma forma sistemática, se procurem identificar as melhores práticas nesta área. As iniciativas reveladoras desta consciencialização têm-se multiplicado: estudos, conferências, debates…Contudo, é patente a existência de entropias que impedem um amadurecimento destas abordagens: em concreto, a dificuldade de apresentar, de modo objectivo, as práticas de gestão do capital humano e de promoção do Talento e os benefícios concretos que valorizem as Pessoas, nas várias fases e momentos críticos (educação de base, formação académica, desenvolvimento ao longo da vida e gestão de capital humano nas organizações). É nesta visão integrada que, na minha óptica, deve assentar uma agenda estratégica para o Talento em Portugal.

Educação e Formação académica

Existe hoje uma preocupação consensual: de que modo os sistemas de educação e formação estão efectivamente orientados para os seus destinatários e para uma maximização dos resultados – conhecimentos e competências potenciadores de uma boa cidadania e de empregabilidade futura? Numa sociedade em rede, complexa, devemos ter uma visão alargada Família – Escola – Academia – Comunidade. As aprendizagens não podem ser desenvolvidas apenas através de “ensino formal”, baseado em metodologias tradicionais, mas também em “vivências activas”. É reconhecido por todos que a (necessária) fase de “massificação” do ensino nas últimas décadas, em Portugal, está ultrapassada e o patamar de exigência elevou-se: hoje exige-se qualidade e excelência. Como tal, há que reequacionar conteúdos e metodologias pedagógicas e os modelos organizativos existentes. A crescente autonomia das escolas (supervisionada em termos de resultados) e o empenho das comunidades locais são hoje, na minha óptica, caminhos a trilhar. 

No que concerne às universidades, importa garantir que Bolonha não será sinónimo de facilitismo e orientar as instituições para a procura do compromisso entre investigação, inovação e as exigências dos mercados de trabalho. Existirá, ainda, a necessidade de complementar competências “do saber” com competências do “saber fazer” e do “saber estar”. Não se pode ignorar que competências como Liderança, Visão Estratégica, Resiliência, Gestão da Mudança e Criatividade são essenciais para a realização e o sucesso profissionais.

Desenvolvimento ao longo da vida e gestão de capital humano nas organizações

O talento está muitas vezes (exclusivamente) associado ao desempenho e à construção de uma “carreira” profissional. Não terá de ser assim…o nosso Talento pode ser utilizado para fins de cidadania, associativos ou comunitários. Mas, abordemos essencialmente a componente do “trabalho profissional”, que pressupõe que os indivíduos adquiram tendencialmente, com o tempo, mais competências, autonomia e responsabilidades. Acontece que tudo isto não acontece hoje de forma linear. A instabilidade associada à globalização, as mudanças socioculturais, o desenvolvimento tecnológico e os rápidos ciclos de inovação provocam crescente imprevisibilidade. A capacidade de adaptação os traços característicos de cada um influenciam bastante o trajecto de carreira. A gestão da carreira está hoje centrada no indivíduo e as suas escolhas de diferentes projectos profissionais, de formação (ao longo da vida) e de modelos de trabalho são exemplos de incerteza mas também de espaço de liberdade. Do paradigma da estabilidade e da antiguidade, passámos para o paradigma da adaptação, flexibilidade e desenvolvimento constante. Que podem as organizações fazer? Compreender o Talento de forma sistémica e agir. Olhar para a performance dos indivíduos e perspectivar o potencial de evolução. Depois, avaliar os “ingredientes” – as competências (técnicas e pessoais), a motivação (conjuntural) e o compromisso (estrutural) com a organização, com quem se estabelece uma relação de trabalho. Então, há que agir com processos específicos de Gestão e Desenvolvimento de Talento: (1) através do acolhimento e a integração dos indivíduos no quadro de referências da empresa (missão, valores), com responsabilidades potenciadoras do seu talento e (2) desenvolver e reter, através de estratégias de formação à medida, exposição às melhores práticas de colegas mais seniores e partilha/ gestão do conhecimento.

Os líderes empresariais devem, pois, promover determinados valores: o empowerment, a aprendizagem constante, a liberdade para criar e inovar, o mérito e a orientação para os resultados. Tal permitirá emergência de redes de colaboração informais e ciclos de decisão mais céleres e partilhados.

Enfim, são linhas estratégicas a estudar, reflectir e…executar!

17 comentários até agora

17 Comentários para “Uma agenda estratégica para o Talento em Portugal”

  1. quelhas motaa 05 Set 2011 as 15:15

    Elegante e sintético – eu não podia estar mais de acordo.
    A primeira parte: Educação e Formação Académica, é da responsabilidade das escolas e universidades. A segunda parte é da responsabilidade das empresas, dos seus gestores e da sua inteligência «na gestão», tendo passado assim a sua avaliação das escolas e universidades para o mercado – aí aonde a incompetência «na gestão» se paga bem cara (bem…, se não estiver protegida pelo Estado).
    Em certo sentido, só a primeira parte se pode «estudar, reflectir e… executar». E, aí, tenho alguma esperança no actual Ministro da Educação.
    Contudo, e a propósito, do que afirma sobre a necessidade de se passar «para um paradigma da adaptação, flexibilidade e desenvolvimento constante» – cuja «preparação» eu penso dever-se realizar na Universidade -, gostaria de referir o que um velho professor me disse: a diferença entre o Técnico Superior e o Técnico Médio é que o Técnico Superior é ensinado a aplicar às necessidades da respectiva área de trabalho aquilo que a Ciência está a descobrir todos os dias enquanto que ao Técnico Médio se ensina a aplicar técnicas e procedimentos já estabelecidos, em geral de rotina (porventura já inscritos em programas informáticos) ainda que possam exigir a capacidade de utilização de ferramentas «complexas» como, por exemplo, alguma matemática «superior».
    Ora, o que nós fizemos foi misturar tudo. Hoje não há distinção na formação dos técnicos superiores e dos médios e, pior, os técnicos superiores – ainda que os denominemos de «superiores» – estão a ser ensinados a aplicar «rotinas», frequentemente até as rotinas que estão estabelecidas em Regulamentos legais, como se o Conhecimento – superior – se reduzisse a isto.
    Há de facto muito para «a estudar, reflectir e…executar!»

  2. fvroxoa 06 Set 2011 as 8:22

    Meu caro Carlos Sezões
    Sobre Talento e pessoas Talentosas já muito fui escrito e dito em Portugal.Infelizmente Talento não são resultados.E a maioria do que se encontrou em talento é muitas vezes mais do mesmo.Talento sem trabalho e só com exibicionismo não é nada.Sobre o tema escrevi neste blog :http://www.sedes.pt/blog/?p=3402 o que penso e tenho visto. Talento e Génio são duas boas dimensões que fazem a mudança nas sociedades.Por cá acredito em novas gerações talentosas se estiverem em permanente “lá fora e por cá”.Fazendo.
    Em Portugal Talento significa muito Vaidade tipo “tenho um MBA ou um PHD”. E que facilmente falam de emprendorismo.Mas pouco mais fazem do que viver à conta de “locais de renda” e pouca seriedade.
    É o que temos tido.Espero que mude.Mas vejo muita apatia e sigo a linha do que refere bem como o que Quelhas Mota comentou.
    Lá vamos fazendo umas coisas bonitas como é o caso da Cotec e do http://www.movimentomilenio.com/, mas no resto é só elite de esperança.
    Acredito que a crise provocará o aparecimento de gente talentosa forjada na luta pela sobrevivencia e mudança.As novas gerações que recusam o “penacho pelo penacho”.
    FVRoxo

  3. Jorge Bravoa 06 Set 2011 as 14:03

    Parabens Excelente artigo e bons comentarios.

  4. PMPa 06 Set 2011 as 18:12

    Sem um programa acelerado de aplicação do conhecimento universitário/politécnico nas empresas portuguesas, um projecto Apollo a la JFK , vamos continuar a discutir este tema sem resultados palpáveis na economia nos próximos 10 anos.

  5. Maria Isabel Telesa 07 Set 2011 as 1:06

    Boa noite.
    Identifiquei-me com o que escreveu.
    Concordo quando refere que o patamar de exigência se elevou, mas eu atrevo-me a afirmar que nem todos conseguem ter as condições desejáveis, para que a sua educação/formação seja de facto de qualidade.
    Estamos muito preocupados com a falta de vagas nas creches mas não pensamos em estratégias que permitam gerir os horários dos pais (não somos competitivos, trabalhamos pouco, etc.!), de maneira a que estes estejam mais tempo com os filhos e acompanhem melhor o seu desenvolvimento.
    A escola a tempo inteiro, pensada para promover o acesso das crianças a actividades de enriquecimento curricular (mas principalmente para que os pais estejam mais horas no trabalho), obriga as crianças (a partir dos 6 anos) a estarem demasiado tempo no mesmo espaço físico e com o mesmo modelo de aprendizagem formal/escolar.
    Os mega-agrupamantos escolares permitem economizar recursos, mas os espaços escolares demasiado grandes não são promotores de qualidade.
    O encerramento de escolas possibilita que as crianças tenham acesso aos melhores equipamentos mas a que preço? Estarem fora de casa 12 horas por dia.

    Para se desenvolverem “talentos” e termos desempenhos excelentes são necessários pré-requisitos, estes desenvolvem-se nos primeiros anos de vida. As crianças precisam de tempo, disponibilidade, atenção, vivências de qualidade.
    Se os pais trabalham demasiadas horas e não têm tempo, mas simultânamente há tanto desemprego; poderíamos pensar em estabelecer novas modalidades de trabalho. Será que muitos de nós estaríamos dispostos a trabalhar menos horas (e receber menor vencimento, evidentemente) para que outros tivessem emprego?
    Pensemos que menos 10% de horas de trabalho e de vencimento corresponderiam a mais tempo para os filhos, para família e para nós próprios, e estaríamos a contribuir para um posto de trabalho.
    Será uma ideia disparatada? Ou teria adesão por parte de alguns empregadores e trabalhadores?
    Considero que para atingirmos a excelência temos que pensar a educação e a formação. Mas temos também de pensar a família e a sociedade. São para ter em conta quando procuramos a qualidade e o talento.

  6. quelhas motaa 07 Set 2011 as 8:02

    Maria Isabel Teles
    Acho que levanta uma questão fundamental: o papel de Educação nos primeiros anos de vida – quando, afinal, a escola nem dá educação, mas instrução, e, frequentemente, as creches como as escolas acabam por ser simples depósitos-de-crianças, cujos pais não podem estar com elas porque têm de trabalhar mais horas do que deveriam, ainda por cima mais para pagar impostos do que para «tratarem da sua própria vida».
    A «destruição» da cidadania por força concentração do Governo-da-sociedade – portuguesa – no Estado, transformou os cidadãos em «pagadores de impostos» para que o Estado trate deles, restando-lhes um fundo-de-maneio para o dia-a-dia. Ou seja, a questão que coloca já não está na mãos dos cidadãos – que, de facto, trabalham imenso -, mas na do Estado para quem trabalham (quer pelos impostos que se pagam, como pelas taxas, coimas e multas, ou custos de serviços «monopolistas» criados pelo próprio Estado ou por ele protegidos a que se tem obrigatoriamente de recorrer, etc.). A Crise vem agravar essa situação.
    Os trabalhadores e empregadores – com excepção dos protegidos – têm pouca hipótese de dar a volta a isso, já que vivem num mercado «aberto», aonde a competitividade é enorme, aonde a única resposta é pressionar os salários para baixo ou as horas de trabalho para cima, para continuar a produzir bens e serviços competitivos, que não os façam falir. O «alívio» de uns e outros e a transferência da capacidade-de-decisão para os cidadãos – de, por exemplo, trabalharem menos – só se tornará possível quando os impostos e as protecções monopolistas diminuírem significativamente.
    Paralelamente não queria deixar de manifestar o quanto acho perigoso as mega-concentrações escolares, nem que seja pelo simples facto de «misturarem» crianças de 10 a 12 anos, por exemplo, com adolescentes de 16 a 20 anos. Na Educação, mais que a «poupança» de dinheiro é a qualidade que interessa – uma qualidade que amanhã «poupará» muito dinheiro.

  7. PEDRO PINHEIROa 07 Set 2011 as 11:55

    Vou começar por uma ideia do nosso Filósofo José Gil, quando inquirido sobre uma ideia para Portugal para sair da crise, vejam a inteligência da resposta, “criar uma Universidade de Ponta”, com cursos verdadeiramente significativos para a sociedade portuguesa e aberta ao mundo”, apelando para uma relação entre áreas dentro da faculdade, e alertou para um pequeno pormenor mais decisivo, “que fossem realmente os melhores(professores e alunos)” os escolhidos. Lembrei -me logo do MIT americano, e o sucesso que a Universidade pode ter com o mundo global empresarial.
    Temos de apostar no talento, na meritocracia( pouco em voga em Portugal), e colocar essas pessoas em plataformas,em sinergias que permitem a execução, o tornar produtivo o talento. Advogamos todos mais produtividade, contudo na hora de escolhermos, incluindo nas nossas Universidades, lançamos “as mãos ao clientelismo”; o que tem constituido um dos entraves ao nosso desenvolvimento. Temos politécnicos por todo o país, sem dúvida, com que produtividade?’ Penso que o problema esteve na origem, criaram-se politécnicos não a pensar no país mas para alimentar feudos, só assim se compreende tanto curso de ensino, e áreas sociais, em detrimento dos cursos que podem trazer a almejada produtividade.

  8. fvroxoa 09 Set 2011 as 7:16

    Vale a pena ler este artigo saido no Economist http://www.economist.com/node/21528226 para analisarmos e comprendermos profundamente o grande desafio estratégico do Talento visto só pelo lado da educação e formação em Portugal.
    FVRoxo

  9. Pedro S.a 09 Set 2011 as 7:31

    No mundo kafkiano Português em que vivemos a Universidade é na generalidade dos casos um “corpse” que se arrasta, indiferente às solicitações dos estudantes e da sociedade. Muitos cursos são feitos à imagem dos disponíveis com pouca massa participativa e crítica e pasme-se, no nível superior do nosso ensino a avaliação é inexistente.
    A agenda estratégia de Sezões era brilhante não fosse a astenia de uma geração que olha sempre e cada vez mais incrédula para uma elite do poder que entretém e retém a nossa ousadia e a nossa energia.
    Medíocre but arrogante (MBA) é a condição da nossa elite de cidade, do país mais corporativo “zangado” e de pedra.
    Nós Portugueses, merecíamos mais, ao contrário dos outros, os mouros, que não são cidadãos de qualquer espaço geográfico, mas indolentes pedreiros livres que vivem entre o monopólio da bondade e a mesquinhez mais pequenina que abate na conspiração mais atrevida as Rosalinas deste mundo.
    Silvas, Limas, Sousas, Coelhos, Costas, Vieiras, Loureiros e tantos outros mouros estabelecem na penache da comunicação que nos afoga em asco, estabelecendo o padrão de benchmark das boas práticas.
    Afinal, Deus é Português, mas também um enorme sabujo quando desce ao rectângulo, das Às23 de betão, outrora florido e à beira mar engalanado.
    Somos tão talentosamente inócuos, mas graciosos!

  10. ACGa 09 Set 2011 as 10:21

    Considero o artigo excelente – aborda o tema, com a profundidade disponível numa página A4, numa perspectiva de transformação. Também acho que alguns dos comentários fornecem contributos para o tratamento do tema, mas outros (perdoem-me a franqueza) ficam pela crítica (nem sempre feliz) sem contribuírem para o desenvolvimento do tema.
    É minha opinião de que o talento se desenvolve em ambientes adequados, mas não é tudo. É necessário que, em paralelo, seja desenvolvida uma atitude de “prática focada”. Esta atitude exige esforço e o descartar de outras alternativas para ocupação do tempo (que muitas vezes dão recompensas mais imediatas), o que exige motivação.
    De facto, os processos de aprendizagem, primeiro na escola e depois no trabalho profissional, não são actividades lúdicas (embora tenham momentos lúdicos), são actividades em esforço, umas mais do que outras. Daí, que seja muito importante o papel da família, para orientar, motivar e exigir esforço às crianças e jovens, para algo que, de uma forma geral, não fornece recompensas imediatas. Diria mesmo que esse é um factor da maior relevância para indivíduos “bem sucedidos” pessoalmente, profissionalmente e enquanto cidadãos.
    Dos estudos que vou lendo e do que vou observando, o deficiente desempenho de muitas famílias no cumprimento desse papel é uma das causas principais do nosso relativo (in)sucesso escolar. Algumas nem cumprem o papel de alimentar as suas crianças e jovens (embora lhes possa fornecer objectos com valor social, tipo telemóveis). E este é também um factor de reprodução social, isto é, “filho de pobre sai pobre”. Portanto, em paralelo com um trabalho de melhoria do sistema de ensino, nos seus diversos graus, que inclui a implementação de patamares de exigência adequados para todos os actores – gestores, professores e outros profissionais e alunos – o Ministério da Educação precisa garantir a alimentação das crianças e jovens mais desprotegidos. E, em colaboração com outras entidades governamentais, actuar junto das famílias socialmente mais débeis ou menos estruturadas – directamente ou através das IPSSS – para as ajudar a cumprir o seu papel no estímulo dos jovens.
    No que se refere ao desenvolvimento do talento em ambiente profissional, também partilho as ideias expressas no artigo. Portanto, o desafio que se coloca à sociedade portuguesa é o de encontrar caminhos para que as ideias se pratiquem, quando a sua estrutura empresarial comporta um elevado número de micro e pequenas empresas, em ambientes de crescente precariedade laboral e de ameaça de insolvência de muitas empresas. Julgo que as associações dos diversos sectores empresariais têm um papel relevante na orientação e suporte das empresas suas associadas e na formação dos empresários, abrindo-lhes caminho para abordagens mais centradas no desenvolvimento dos seus colaboradores. Como temos uma cultura marcadamente individualista, o incentivo governamental para o associativismo poderá constituir uma ferramenta para o desenvolvimento das empresas.

  11. Carlos Jorge Morais Louresa 09 Set 2011 as 16:19

    Sempre disse e afirmei que Portugal possui recursos humanos excepcionais; o artigo do senhor Carlos Sezoes é BRILHANTE.
    Sou bacharel em Engenharia Electrotécnica em 1984, frequento o Mestrado da mesma área no ISEP, mas com residência fixa nos Açores.
    Se é difícil estudar assim? A educação é tudo na vida e a Filosofia Kaizen ensina-nos a progredir com qualidade todos os dias. Em África as crianças não possuem nada mas vão à sua escola a pé, descalços, sem pequeno almoço no estômago mas com a maior fonte de energia renovável do ser humano: a Força de Vontade.
    Portugal é um país de muitos talentos mas a minha experiência de vida dá-me o suporte para afirmar: os interesses partidários e pessoais em Portugal estão acima dos interesses do nosso País; acrescento a estes factos a inveja.
    Eça Queiroz sempre disse isso.
    Coloque-se as pessoas com os perfis certos nos lugares certos; as universidades formam por exemplo engenheiros e médicos mas não lhes dá Educação.
    Os valores da Educação são ensinados pela família e pela comunidade educativa; no limite somos todos comunidade educativa; respeito, dedicação, esforço, honestidade, integridade, humildade, e reconhecimento entre outros predicados, deixaram de ter sentido na nossa actual sociedade.
    E estes não se aprendem nas Universidades.
    Portugal é um país brilhante; pena é que os ” Bons de Portugal, homens e mulheres “ esqueçam o pensamento de Edmund Burke :
    Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada.
    Bem haja senhor Carlos Sezoes pelo artigo.
    Carlos Loures

  12. Pedro S.a 10 Set 2011 as 10:39

    Caro ACG

    Há poucos dias li um artigo que alvitrava que os fóruns eram, na sua maioria, espaços de vaidade onde nos cruzávamos no espaço público, como antigamente a burguesia cínica Lisboeta de chapéu na mão e sinalética educada, mas de exclusivo bom tom, de bom dia.

    Não concordo em absoluto, porque podem também ser espaços de diálogo mas também de abano das consciências de um país que gosta de surfar as ondas mas não de as enfrentar – os procedimentos estão errados, mas não faças ondas porque te prejudicas; isto está errado, mas o chefe é que manda; não há justiça, como já muito deixou de haver polícia na rua, mas de quem é a responsabilidade? o Presidente disse uma enorme calinada, mas saiu-te da boca um enorme sorriso alarve subserviente à espera de “prebendas”; aquele tipo é corrupto, mas isso não é contigo, é um problema da justiça – e por aí adiante.

    Todos sabemos que o nosso país necessita de reformas profundas, reformas que não se podem situar apenas nas instituições mas necessitam se alargar à própria sociedade. Uma sociedade solidária, enxuta, moderna, educada, respeitadora, não elitista e inclusiva de todos e de todos os argumentos. Uma sociedade que saiba calar-se, ouvir e efectivar trabalho – mais do que falar.

    E é por isso que concordo com FRoxo, Quelhas da Mota e PMP. As coisas são tão sérias, os vícios tão “ruins”, que exigem não a inação da palavra mansa, mas palavras duras e acção.

    Podemos continuar a viver, como a quase generalidade de nós fez, num país faz de conta. Faz de conta que não nos estamos a endividar de mais; faz de conta que vivemos num país de repartição justa; faz de conta que aquilo que “vencemos” equivale ao que produzimos; faz de conta que somos solidários uns com os outros; faz de conta que já não estão os diagnósticos todos feitos; faz de conta que há uma enorme qualidade nas nossas instituições e que não vivemos da falta de mérito, da cunhazinha, do compadrio, do tráfico de favores e influências. Faz de conta que não há responsáveis pelo estado a que chegámos; faz de conta que não há nas nossas instituições gente que rouba, que mata, que desvia, que manipula, que se aproveita em causa própria, que legisla em causa própria, que não merece comendas. Faz de conta que muitos dos nossos grandes empresários não enriqueceram à conta dos pequenos e esforçados empresários e accionistas; faz de conta que o nosso problema não é de concorrência e monopólio; faz de conta que o regulador, regula e não está sujeito a sequestro de regulador, …

    Olhando para este rol de faz de conta, percebemos que não é de educação formal que necessitamos, mas de educação pelos valores, pela ética, pela cidadania, pelo desprendimento (muito me rio quando alguns alvitram a necessidade de os melhores serem chamados à vida pública apenas por melhores remunerações. O mercenarismo não faz parte, pela certa, do catálogo do perfil de desinteresse do servidor do bem público. Quem quer mais vencimento não tem obviamente o perfil!).

    O mérito no acesso ao cargo público, ao cargo dirigente, à Universidade, é uma palavra erradicada há muito do nosso vocabulário.

    Como todos os faz de conta e das generalizações há, obviamente, excelentes excepções ao faz de conta. O negativismo também tem de se combater, mas possivelmente é necessários destilá-lo todo para começar a positivar.

    E o que faz a maior parte da nossa elite, conivente há muito com este estado de coisas? Desfolha da esquerda à direita o catálogo das boas intenções, do comodismo ao oportunismo, do deixa andar ao “virão melhores dias”.

    A Universidade só sairá do marasmo quando se abrir à sociedade (exigência de estudo e sentido crítico sem o retorno ao mérito do papagueanço – que parece a nova moda de quem não sabe em que século está, que não sabe que a educação é para a vida sem término à vista), quando a rotatividade permitir os melhores em cada momento (actualização), quando passarmos da análise mais ou menos inócua à prática da mudança.

    A Universidade (com as necessárias excepções de boas práticas e de excelência) hoje é um corpo que se auto-sustenta. Podia-lhe falar de algumas, como a Universidade de Letras de Lisboa, onde aparenta morar a inacção, a desmotivação e a incompetência.

    Mas a Universidade é o espelho do país. Um país sem esperança regressado às práticas do assistencialismo é um país sem futuro, sem existencialismo e sem sentido crítico.

    De resto, com a atenção que me merecem todas as críticas e observações, concordo consigo. A crítica pela crítica não contribui para o desenvolvimento do tema, mas quem quer daqui a 20 anos estar a repisar vezes sem conta as mesmas debilidades e os mesmos argumentos?

    Mereceremos mesmo existir e ser “notados” como país ou continuaremos raquíticos nos nossos espaços de conforto a ter o medo de existir identificado por Gil?

  13. PMPa 11 Set 2011 as 16:17

    Sendo óbvio que os politicos não conseguiram nos ultimos 20 anos liderar o país, torna-se obrigatório que as Universidades se organizem numa força social que seja o motor do progresso e não continuem como espectadores “descomprometidos” da estagnação nacional.

  14. Nuno Vaz da Silvaa 12 Set 2011 as 11:22

    Caro amigo Carlos,
    em primeiro lugar é com prazer que leio os teus artigos aqui no blog da SEDES.
    Não sou especialista no assunto Talento, nem no eventual talento (certamente reduzido) que eu possa ter. Afinal de contas, diz-se que todos somos maus juizes em causa própria.
    Ainda assim conheço muitas pessoas com talento, o que eu traduzo como capacidade de iniciativa, criatividade, vontade de executar, coragem para defrontar os riscos e capacidade de execução (poderá faltar algum factor mas não andará muito longe da realidade). No entanto, não é fácil que esse talento seja aproveitado em prol das organizações, assim como não é fácil que seja aproveitado pelo próprio Estado!
    A existência de talento não significa sucesso, nem garante um futuro proveitoso.
    Conheço pessoas talentosas que foram colocadas de parte porque eram um factor de risco para pessoas menos talentosas e desconfio que essa é uma prática usual em organizações matriciais.
    Assim sendo, como pode um talento ultrapassar essas barreiras ao sucesso? Com lideres que promovam os valores que defendes no penultimo parágrafo. Claro que sim! 100% de acordo.
    Mas infelizmente nem sempre os líderes têm essas caracteristicas. E muitas vezes as barreiras não são colocadas pelos líderes mas sim pelos quadros intermédios.
    Mais do que uma vez ouvi amigos talentosos, de diversas àreas, defenderem que para ter sucesso em Portugal não se pode ser talentoso. E quantas vezes não ouvi já esses amigos dizerem que vão apagar rubricas dos seus curriculos para poderem ser chamados a entrevistas de forma a não ouvirem exclamações como:
    ” Tem demasiada formação para a função em causa”.
    E não nos esqueçamos que em Portugal há um outro factor que coloca o talento em desvantagem competitiva: a cunha.
    Quantos de nós não conhecem alguém talentoso que foi preterido por ter um concorrente sem capacidades mas com cunha?
    Concordo que é um debate que não devemos desprezar mas o talento, per se, não é suficiente. Tem de haver incentivos para a sua promoção, seja no sector privado, seja no sector público!

  15. ACGa 12 Set 2011 as 17:36

    Meu caro Pedro S
    Em primeiro lugar agradeço-lhe a réplica, principalmente nos termos em que o fez. Infelizmente, abundam exemplos de intervenções em blogs ou em publicações “on-line”, onde, para além de não se passar da crítica feroz, o insulto é o argumento mais utilizado. A sua réplica situa-se apenas no campo das ideias e, por isso, merece, em minha opinião ser debatida. Assim, como outras opiniões expressas na sequência do artigo de Carlos Sezões.
    Alguns estudos revelam uma característica bem presente em muitos portuguesas a que eu chamo “o síndroma do condutor”, isto é, conduz-se mal em Portugal, não se respeitam as regras de trânsito, nem de boa educação… mas são os outros, não eu. Em resumo, existe uma percentagem bem significativa de nós, portugueses, que considera que o país está mal mas os responsáveis são todos os outros. Ou quem exija mudanças… mas não alguma que os atinja. Considero este posicionamento, algo moralista e irrealista, nefasto para se poderem ultrapassar as nossas limitações e arcaísmos. Como dizia Gandhi , em tradução livre “Temos de nos tornar na mudança que queremos ver”.
    Em minha opinião, temos, de facto, demasiados factos como os que enumera genericamente, no “faz de conta”. Contudo, temos de passar a propostas de actuação, ideias que dificilmente poderão não ser genéricas, mas que constituam contribuições a serem desenvolvidas por quem actua nas diversas áreas.
    Como no texto anterior já foquei o caso dos Ensinos Básico e Secundário, neste direi algo sobre o Ensino Superior. Considero que existem boas universidades/faculdades que, não sendo perfeitas, preparam tecnicamente muito bem os seus alunos. Nestes casos, bem identificados na sua maioria, importa melhorar e não “ignorar que competências como Liderança, Visão Estratégica, Resiliência, Gestão da Mudança e Criatividade são essenciais para a realização e o sucesso profissionais”, como diz Carlos Sezões.
    Por outro lado, é genericamente reconhecido que existe uma oferta excessiva de cursos, tanto nas Universidades como nos Politécnicos, alguns de duvidosa empregabilidade e outros de que nem isso se sabe. Em contraponto, é reconhecido que tanto as Universidades como os Politécnicos localizados em cidades, que não Lisboa, Porto ou Coimbra, têm contribuído para evitar a desertificação e constituem, em quase todos os casos, pólos de desenvolvimento. Penso que a promoção da Associação entre Universidades ou entre Politécnicos, a ser bem sucedida, permitiria criar massa crítica para o desenvolvimento da Investigação e melhoria do Ensino. Até poderia atrair mais estudantes se a qualidade geral percepcionada aumentasse.
    Como não temos uma grande cultura de associativismo, e existirá o receio de muitos em perder algumas das “condições de vida” de que desfrutam actualmente (num processo de mudança há sempre quem fique ou considere ficar pior), precisariam de existir os “incentivos” (não se leia apenas dinheiro) certos para se mobilizarem vontades.
    Apenas uma nota final. Conheço gente talentosa mal compreendida ou com carreiras mais lentas por ser incómoda, mas não conheço gente talentosa, com respeito pelo talento de outros e sem excessiva pressa de fazer valer as suas posições, que não vá fazendo o seu caminho, embora talvez não tão rapidamente como outros menos talentosos mas menos escrupulosos nos seus valores. Considero que é nosso papel, contribuir para que cada vez mais o talento, com “prática focada” e bem servida por valores – ética, cidadania, humanismo, etc – possa fazer o seu caminho com menos obstáculos.

  16. António Luís Lopesa 14 Set 2011 as 14:52

    Em primeiro lugar gostaria de saudar o Dr.Carlos Sezões não só pelo artigo aqui disponibilizado mas igualmente pela iniciativa mais global de reflexão sobre uma Agenda Global para o Talento, levada a efeito por grupo de trabalho da SEDES.

    Interessantes os comentários que diversos outros intervenientes aqui deixaram sobre este tema e que ajudaram também a aprofundar esta discussão.

    Confesso que a questão essencial, para mim, está naquilo que possamos definir como Talento. Alguns dirão que Talento é a capacidade de alguém suplantar a mediania, de inovar, de alargar fronteiras no Conhecimento, na Arte, na Gestão, etc. Outros dirão que Talento será a capacidade de fazer bem, de seguir princípios éticos, de respeitar o Outro e ser capaz de potenciar o seu melhor. Enfim, creio que, no fundo, cada um de nós terá uma definição muito pessoal do que entende por Talento, embora possamos identificar alguns “traços” que, em meu entender, acabam por ser “comuns” e “impôr-se” de “per si” quando pretendemos definir Talento, a saber:

    - constante “insatisfação” com objectivos atingidos, tendo a certeza interior de que será necessário fazer mais e melhor e, sobretudo, saber fazê-lo em contextos diversificados;

    - capacidade para “romper” com o “status quo” sem “partir a louça”;

    - auto-motivação, crença num futuro melhor e forte comprometimento na construção do mesmo;

    - profundo respeito pelo Outro, pelas suas diferenças, pelas suas capacidades (ou incapacidades), pelas suas ideias, opções, projectos;

    - capacidade de “mostrar” o Futuro “hoje”, entusiasmar, convencer, “iluminar”.

    Sendo as Organizações também espaços de competição é óbvio que, muitas vezes, o Talento de alguns “incomoda” quem não consegue atingir determinados patamares apenas pelas suas próprias capacidades. Ouvimos (e constatamos) muitas vezes que os Portugueses vêem melhor reconhecido o seu trabalho (o seu talento) no Estrangeiro do que no nosso próprio País. A produtividade que é baixa em Portugal, aumenta imenso em países como o Luxemburgo, onde a mão de obra portuguesa é determinante.

    Por isso creio que, para que possamos, efectivamente, reconhecer e apoiar o Talento nas nossas organizações teremos, em primeiro lugar, que efectuar uma verdadeira “revolução” na liderança das mesmas, nos seus diversos patamares. Temos, aliás, imensos “chefes” – mas poucos líderes reconhecidos como tal e não porque está escrito algures num qualquer regulamento. A “sufocação” do Talento nas organizações começa, essencialmente, no patamar das chefias intermédias, quando estas baseiam a sua posição em meros argumentos de autoridade, de cumprimento (r)estrito de regras e normas, de “nivelamento” do que pode ser dito, feito ou sugerido. O Talento de outrém não pode ser visto como uma “ameaça” – infelizmente é o que acontece demasiadas vezes num universo onde a mediocridade e o compadrio definem aquilo que está “certo” ou “errado” e determinam quem “manda” e quem “obedece”.

    Muito mais haveria a dizer mas não quero entediar os restantes participantes, deixando apenas esta modesta reflexão sobre um tema relativamente ao qual tenho bastante interesse e acho ser vital para o nosso País dar um “salto” muito importante não apenas ao nível económico mas sobretudo de “mentalidades” e de rotura com um paradigma de “autoridade/obediência” que é altamente castrador do verdadeiro Talento. Acompanharei por aqui este tema e terei muito gosto em poder dar o contributo possível em termos pessoais.

    António Luís Lopes

  17. Carlos Sezoesa 15 Set 2011 as 16:39

    Caros(as) Amigos(as) e colegas deste blog,

    Agradeço os vossos comentários e peço-vos desculpa por não responder a todos individualmente, como a qualidade das vossas reflexões mereceria!

    Identifico-me com a grande maioria das vossas impressões e as preocupações do Grupo de Trabalho de Capital Humano da SEDES, que tenho a honra de coordenar, alinham-se com os desafios aqui identificados para Portugal, nas próximas décadas.

    Como entusiastas destes temas, deixo-vos o convite para, se vos for possível, participarem no 2º workshop do projecto “Escola do Futuro”, dedicado ao debate de conteúdos e metodologias pedagógicas.
    O evento será realizado na 5ª feira, dia 22/09, entre as 18.30h e as 20.30h, em Lisboa, nas instalações da SEDES (Rua Duque de Palmela, nº 2 – 4º D).
    Tópicos a debater:
    - Que conteúdos de base? Qual o peso da Língua Portuguesa, da Matemática e das Ciências?;
    - Qual o enfoque no desenvolvimento da criatividade e do pensamento divergente?
    - As novas metodologias activas, experienciais e interligadas com a realidade;
    - Novas tecnologias no apoio à aprendizagem;
    - Benchmarking de exemplos Europa/ USA;
    Oradores já confirmados:
    - Maria do Céu Roldão (Professor catedrática da Universidade Católica – Área das Ciências da Educação)
    - José Maria Almeida (Coordenador pedagógico das escolas do grupo GPS, ex-director regional de educação de Lisboa e Vale do Tejo).
    . Etelberto Costa (Presidente Núcleo de Formadores & Coaches da APG e coordenador na rede PT Learning Working Group)

    A entrada é livre mediante inscrição em capitalhumano@sedes.pt.

    Até breve,
    Um abraço amigo,
    Carlos Sezões