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Out 12 2011

Dos egoísmos nacionais aos federalismos de ocasião

Publicado por Carlos Sezoes a 21:02 em Artigos Gerais

“Um político pensa nas próximas eleições; um estadista nas próximas gerações.”

James Clarke

Já por mais que uma vez escrevi que a Europa não tem dado uma boa imagem de si própria neste período conturbado (e simultaneamente desafiador), iniciado com a crise de 2008. O estado do sistema financeiro, o nível das dívidas soberanas, a anemia das economias e o crescimento do desemprego (ciclo quase vicioso, em que dificilmente se isola a causa e o efeito), colocam uma ameaça seríssima à coesão económica e social da Europa e à futura sobrevivência do Euro

Como em muitas outras áreas ou ocasiões na história, os egoísmos nacionais têm aqui um papel importante, no passado e no presente a que todos assistimos. Os egoísmos de quem tentou, durante décadas, angariar ao máximo fundos estruturais mas evidenciou um empenho bem menor na sua correcta aplicação. Egoísmos de quem, quando os tempos passaram a ser menos risonhos, começou a esconder as contas reais e a manipular estatísticas nacionais. E os egoísmos, mais recentes, de quem pretende defender uma supremacia nos processos de decisão europeus, agradar pontualmente aos seus eleitorados e pôr em causa o futuro do projecto europeu.

A resposta está numa visão de longo prazo. Neste mundo multipolar, em que potências emergentes (China, Brasil, Índia, México ou Turquia) terão um peso cada vez maior nas decisões mundiais e em que o espaço central da economia e política mundial será cada vez mais o Pacífico em detrimento do Atlântico, importa que a Europa fale a uma só voz, ganhando a consciência que são mais as questões que unem que as que separam os Europeus. Em suma, fazer deste mercado com mais de 500 milhões de consumidores, com os melhores níveis de qualificações e de competências no mundo uma voz respeitada e influente nos grandes desafios do mundo actual (geopolítica, energia, terrorismo e segurança internacional, comércio mundial ou políticas ambientais). Se o Euro cair e a Europa voltar a ser apenas uma estrutura de cooperação económica, ninguém (nem mesmo a Alemanha) terá peso e relevância mundial.

Mas esta vontade tem de ser genuína. Vimos agora emergir o que se pode chamar “federalismos de ocasião”: por palavras bonitas, dizem “por salvem-nos, paguem as nossas dívidas”…em troca tornamo-nos “mais europeus”. Obviamente, que isto é hipocrisia e é natural que seja olhado com reservas pelos países do norte da Europa. Eurobonds, governo económico ou harmonizações fiscais farão sentido quando todos estiverem dispostos a cumprir um conjunto de regras mínimas – e, a partir daí, a prosseguirem um caminho comum.

A Europa deverá olhar para estes tempos de incerteza como uma oportunidade. Já tivemos gerações de verdadeiros líderes europeus, estadistas ao nível do grau de exigência dos contextos históricos: Churchill e De Gaulle na II Guerra Mundial, Adenauer, Monnet, Schuman e De Gasperi na criação das instituições europeias na década de 50 ou Delors, Mitterrand e Kohl na queda do bloco comunista e lançamento da União Europeia nas décadas de 80 e 90. Espera-se que a actual geração de líderes sejam mais que meros políticos de ocasião e que saibam ser lúcidos, corajosos e responsáveis. Será essa a diferença entre uma nova prosperidade ou uma longa decadência.

Carlos Sezões

44 comentários até agora

44 Comentários para “Dos egoísmos nacionais aos federalismos de ocasião”

  1. Jorge Bravoa 12 Out 2011 as 21:26

    Não será esperar demais?

  2. PMPa 12 Out 2011 as 22:06

    Gostava de perceber como se pode ter inventado uma moeda federal sem divida federal ?

    Os paises que não querem uma verdadeira União Monetária então devem sair do Euro.

  3. PMPa 12 Out 2011 as 23:02

    Another summer, with job growth lagging population growth? That’s bad. A closer look at the long-term historical data reveals something far more disturbing. We’re 30 million jobs short of full employment. Can we put 30 million people to work in the next five years, and end this economic malaise? Yes, we can.
    The answer was suggested a half-century ago by Milton Friedman: replace most social welfare programs with a negative income tax. A minimum wage punishes willing employers and willing employees.

    http://www.realclearmarkets.com/articles/2011/10/12/30_million_new_jobs_in_five_years_yes_we_can_99305.html

  4. quelhas motaa 13 Out 2011 as 8:03

    Bom artigo.
    Todas as sociedades humanas, para se preservarem e desenvolverem como comunidades, precisam de ter «Princípios» – É sobre esses Princípios que se constrói.
    Mais do que «dinheiro», a Europa precisa de Princípios e, evidentemente, de Lideres, que o são, porque possuem Princípios.

  5. julio moreiraa 13 Out 2011 as 9:01

    Carlos Sezoes
    Excelente artigo.
    Quelhas Mota
    Muito bom e certeiro o comentário.
    A questão que subsiste é que, perante o cenário que temos, em tudo contrario á existencia de Principios, como se dará a necessária e urgente inversão.
    Desde já digo que não sei.
    Cumprimentos

  6. Carlos Jorge Morais Louresa 13 Out 2011 as 9:32

    Excelente artigo.

    A frase de James Clarke é “Enorme”.

    O artigo ” 30 Million New Jobs In 5 Years? Yes We Can! ” do link identificado no comentário do senhor PMP é muito bom.

    Atrevo-me a acrescentar apenas o seguinte texto de um escritor português:
    Os Pobres ( I )

    ” … ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, essas horas contadas de uma vida toda material, massuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente daquela que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai : reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai – No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana ? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico ? [ ... ] cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. ”

    Almeida Garrett, in ” Viagens na Minha Terra “, ( 1843 )

    Vou dar conhecimento deste blog da Sedes a muitos amigos e conhecidos.

    Isto porque a “Educação” é feita no dia a dia e não se resume apenas ao que se aprende nas escolas e universidades.

    Saúde.

    Carlos Loures

  7. julio moreiraa 13 Out 2011 as 10:13

    Cralos Loures
    Obrigado pela transcrição.
    Absolutamente de acordo com a sua alusão á forma como a “Educação” é feita.
    Cumprimentos

  8. PMPa 13 Out 2011 as 10:17

    Carlos Loures,

    Infelizmente continua o mito que é necessário existirem pobres para existirem ricos.
    Isso é falso e ilógico. Existem várias soluções macro-económicas para eliminar a pobreza.
    Andam todas à volta de que numa sociedade altamente industrializada a produtividade é tão elevada nos bens essenciais que o desemprego elevado pode ser endémico.

    O problema é que 250 anos depois de Adam Smith os economistas não entendem o que é o dinheiro, ainda pensam que é ouro, ou prata ou um bem material.

  9. quelhas motaa 13 Out 2011 as 10:27

    julio moreira
    O problema está precisamente no que diz.
    Os Princípios fundam-se numa longa Tradição que, porque deu resultados, se preserva ainda «hoje» – os Princípios não são uma construção abstracta à priori, ainda que os possamos pensar dessa maneira de tão «Habituados» que estamos a eles, em geral inculcados na nossa meninice nas nossas famílias. Tradicionalmente, é a Religião que os transporta – daí o seu forte conservadorismo – geração após geração com poucas alterações.
    Nos EUA jura-se sobre a Bíblia (só de parolos, não é?), aqui nem na dita «constituição europeia» se quis fazer referência ao papel do Cristianismo na nossa Cultura.
    A Lei substituiu os Princípios, o Estado substituiu a Tradição, transformando-se num contínuo Reformador e «Construtor» – de Moda, evidentemente, já que o «passado» é para enterrar, e o que é «bom» é sempre o «novo», qualquer que surja, o que interessa é o novo e sempre mais novo. A isso se chamou modernidade e desenvolvimento. O mundo parece-nos hoje só assente na Vontade dos Estados – mais do que na dos homens -, assente portanto na «racionalidade» – o top do iluminismo da Revolução Francesa. É como se existíssemos numa mundo-de-ficção: a ficção que nós criamos, e que, porque nos parece «racional», passou a parecer-nos «a Realidade».
    Só reparamos que alguma coisa está mal, quando surge a Catástrofe – pelo menos aí, estamos no momento de perguntar: será que o nosso modelo lógico-conceptual está conforme a Natureza. No mínimo é isso que se exige pelo menos aos académicos, é que duvidem dos seus modelos lógicos, em vez de tentarem, a toda a força, meter a Realidade-empírica nesses seus modelos.

  10. julio moreiraa 13 Out 2011 as 11:39

    Quelhas Mota
    Nem iria tanto por aí no que á definição dos Principios diz respeito.
    Independentemente de crenças religiosas são, ou deveriam ser, de prática universal.
    Se falarmos de pessoas é consensual que os mesmos se deviam pautar pela dignidade, respeito por si e pelos outros, busca de melhorar a sua postura nos diversos nucleos em que esteja inserido, seja a familia, seja o seu trabalho, seja a Sociedade. Ausencia de hipocrisia e de inveja também são de considerar.
    A nivel da Politica e dos Politicos creio que antes de mais, deviam ter presente que estão ao serviço dos cidadãos, em lugar de se servirem dos mesmos.
    Pautarem a sua actuação pela noção de que estão a utilizar e gerir bens que não são seus, mas sim da Sociedade que devem servir.
    Chegados aqui, quando é que, quer a nivel individual, quer a nivel da Politica, alguma vez observamos a cartilha que atrás escrevo?
    Sim, porque não devemos ficar apenas pelo Estado, que culpamos com a maior das facilidades, rapidamente olvidando que poderiamos ser melhores cidadãos que aquilo que temos sido.
    É por tudo isto que confesso que não sei como conseguiremos corrigir aquilo que Almeida Garret escrevia no texto que Carlos Loures transcreveu.

  11. quelhas motaa 13 Out 2011 as 15:19

    julio moreira
    Quanto aos Princípios, verá que retirando aquilo que é «crença» nas Religiões (desculpem-me os crentes), o que fica é uma velhíssima Tradição de bons costumes sobre a forma eficaz de nós seres-humanos nos relacionarmos uns com os outros – isto para já não falar na importância do pensamento racional que, vindo da Teologia, veio fundar a Ciência.
    julio moreira
    Eu também creio que nós somos responsáveis. Mas, repare, elegeu-se Isaltino depois do tribunal o dar como culpado, ou a Srª de Felgueiras depois de estar fugida no Brasil (mesmo que tivesse sido por um erro judicial). Somos culpados, mas segundo a minha opinião, apenas aparentemente.
    Os partidos fizeram umas listas eleitorais aonde meteram «os amigos», neste caso com excepção de Isaltino, e disseram-nos: agora votem em «um de entre estes». Se todos os outros são muito piores que o Isaltino (e é fácil sê-lo), as pessoas fizeram a escolha óbvia. Eu estou num concelho em que se passa algo de semelhante, é preciso mudar, mas aqueles que nos impõem para que neles votemos, são ainda piores – é melhor ficar com o mesmo.
    Por isso continuo a afirmar que o nosso problema de fundo é Político – não é económico, ainda que agora seja o económico a asfixiar-nos. Enquanto os cidadãos não puderem eles-próprios responderem por quem elegem – que não é o caso actual – como pedirem-nos responsabilidades por aqueles que nos impõem à eleição?
    Por exemplo – e com isso não quero criticar o actual Governo que até penso ter sido cuidadosa e honestamente escolhido pelo seu líder -, quem são as pessoas que nos governam? São elas especial e particularmente habilitadas para nos governarem? Que passado têm elas para que os portugueses as tivessem escolhido «especialmente»? Porque estes e não outros? Eu penso sinceramente que há um debate político a fazer no País sobre o nosso modelo-de-governação – mais do que sobre o nosso modelo-económico.

  12. julio moreiraa 13 Out 2011 as 15:42

    Quelhas Mota
    O problema de fundo é exactamente o que escreve no final do seu excelente raciocinio.
    Óbvio que é necessaria uma “refundação” do nosso sistema Politico.
    Ainda aqui há dias apontei o exemplo da formação da ERC em que só participam pessoas indicadas pelos Partidos. Então e fora deles não há pessoas capazes?
    Meu caro
    Por certo já deu conta de várias vezes aqui haver escrito que nós não temos uma Democracia, mas sim uma Partidocracia.
    No nosso sistema politico, e atrevo-me a dizer que intencionalmente, as pessoas não são incentivadas a participar nos processos decisórios. Nem sequer no seu acompanhamento.
    Chamar Democracia a um processo em que as pessoas apenas são chamadas a participar aquando da realização de eleições, e ainda por cima, com participantes cuja inclusão nas listas não foi por si indicada, parece-me, salvo melhor opinião, manifestamente insuficiente.
    Se calhar está na hora, e isso até pode ser o aspecto benéfico da crise, das coisas mudarem, também, e sobretudo, a esse nivel.
    Quem, e como, será autor do primeiro passo é que não sei.

  13. PMPa 13 Out 2011 as 16:42

    Para quem tiver curiosidade link para o que talvez seja o artigo mais completo sobre a Teoria Geral do Emprego de Keynes.

    http://www.postkeynesian.net/ucamonly/Ambrosi.pdf

    É pena que se continue a pensar que é possivel dissociar a politica da economia.

  14. julio moreiraa 13 Out 2011 as 17:09

    PMP
    Para mim não são apenas indissociaveis, como complementares e entre os quais é necessário que exista interacção.

    Nós temos que criar riqueza para podermos distribuir. E isso sem economia e finanças saudáveis não é possivel.

  15. quelhas motaa 13 Out 2011 as 17:38

    PMP e julio moreira
    E eu acrescentaria: sem Governo «adequado» não há economia que lhe chegue.

  16. julio moreiraa 13 Out 2011 as 17:56

    Meus caros
    E isso é tão verdade como nós vermos o estado em que se encontra a zona euro devido, quanto a mim, á ausencia de uma liderança politica clara, firme, e com uma visão integrada do espaço europeu.

  17. PMPa 13 Out 2011 as 18:04

    Pois, mas é mais fácil a um determinado governo promover as politicas económicas mais adequadas do que mudar um regime politico.

    Acho que este forum deve concentrar o debate em mais o que deve fazer o estado dentro deste regime, do que debater hipoteses de regimes politicos diferentes do actual, dado que estamos a falar de escalas temporais muito diferentes e de graus de liberdade muito diferentes.

    Ainda mais complicado é debater questões de indole cultural ou de principios morais, pois então aí a escala temporal é ainda maior e os graus de liberdade muito reduzidos.

    Nós somos o que somos e vamos mudando muito lentamente, enquanto que está demonstrado que é possivel alterar a economia de um país num prazo de 10 a 20 anos , como na Coreia do Sul, Irlanda, Finlandia, Malasia, Taiwan, etc.

  18. Jorge Bravoa 13 Out 2011 as 19:39

    AO MENOS QUE PROMOVA POLITICAS ECONÓMICAS MAIS ADEQUADAS:

    Mais uma vez pela coleta.

    Nada na despesa.

    Qual o plano para reanimar a economia?

  19. Jorge Bravoa 13 Out 2011 as 19:52

    Um politico pensa nas eleições um estadista nas proximas gerações. JC

    Na EU (e cá) não pensam, logo não existem? Será?

    Temo que sim!

  20. PMPa 13 Out 2011 as 22:19

    Esta malta não estuda e depois não entende e depois quer ter soluções.

    É de rir !!!!

  21. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 3:39

    Só náo tem piada nenhuma!

  22. julio moreiraa 14 Out 2011 as 8:07

    PMP
    Mas eu não estou a falar em fazer uma revolução.
    Agora tem que convir que algo nos fundamentos da nossa organização politica tem de mudar para que as pessoas tenham maior grau de intervenção na Sociedade.
    Assim, é que podem surgir movimentos incontroláveis geradores de mudanças abruptas.
    Estão a pedir sacrificios ás pessoas, a classe média já nem sequer vai existir, a troco de quê?
    Para que nada mude e tudo continue na mesma como aqui há tempos escrevi?
    As pessoas precisam de escapes, de ter oportunidade de exprimir de forma ordeira e enquadrada as suas opiniões.
    Quanto a mim este é um excelente forum para o fazer, apenas lha faltando dar mais um passo e começar a organizar debates presenciais e com algum informalismo.
    Temo que da forma como estão a fazer as coisas acabemos em situações violentas como as ocorridas na Grécia. Não é umaginável que as pessoas continuem a sofrer em silencio. Um dia a coisa rebenta.
    Caberia aos politicos abrirem espaço ás discussões.
    É sempre melhor jogar na antecipação.

  23. quelhas motaa 14 Out 2011 as 8:14

    PMP tem alguma razão quanto à temporalizarão necessária para que ocorram transformações económicas, políticas e culturais. Contudo, é precisamente em situações de Crise que essa temporização se pode alterar profundamente. Assim, por exemplo, se a Europa deixar de ajudar a Grécia (ou Portugal) caso não cumpram o acordado, não tenham dúvida que vai haver mudanças sérios nos países não cumpridores – até é provável que surjam primeiro as mudanças culturais, depois as política e por fim as económicas.
    É evidente que isto seria uma grande «perturbação», e, por isso, a Europa será porventura capaz de absorver as Causas – exigindo apenas alguns ajustamentos «morais», mais que económicos, àqueles países – de modo a evitá-la, e, como se diz: a evitar «o contágio». No entanto, mesmo assim mantém-se o que Jorge Bravo e julio moreira acima disseram: continua a haver um problema Europeu e continuará a haver, por cá, um problema português – o que nos leva a dizer que a «solução» adoptada continuará a ser circunstancial, em vez de estrutural, ou seja, o problema acaba por ser empurrado para a frente, aonde pode vir a estoirar com muito mais força.

  24. PMPa 14 Out 2011 as 9:42

    Meus amigos,

    Eu discordo totalmente. Não temos tempo para alterações de regime, ou culturais ou morais.

    Temos tempo para alterações de politica económica, desde que apliquemos o método cientifico (analisar o passado e induzir e deduzir conclusões e hipóteses mais crediveis e cenários mais prováveis) e não fiquemos presos a preconceitos e a mitos.

    O actual paradigma cavaquista monstro estatal + laissez-faire não funcionou em Portugal (nem em lado nenhum ) , então porque mantê-lo ?

    Existem imensos artigos sobre a impossibilidade de um país se desenvolver sob um regime de laissez-faire ainda por cima com moeda forte.

    O monstro estatal está a ser atacado, mas o mito de que o sector privado por si só vai desenvolver o país está tão forte como dantes.

    Incentivos fiscais, financiamento barato, apoio à inovação e desenvolvimento , apoio ao estabelecimento de redes comerciais no exterior, compras do sector publico, plano de agriculturização à escala sub-regional, polos sub-regionais de inovação coordenados pelas universidades.

    E sobretudo consciencialização de que estamos numa guerra económica e numa guerra o que interessa é ganhar.

  25. julio moreiraa 14 Out 2011 as 10:41

    Amigo PMP
    Sabe que o argumento da falta de tempo tem sido utilizado em variadissimas situações. E o que, sistematicamente, vemos?
    Tudo continua na mesma porque não temos tempo para mudar.
    Apenas mais uma achega meu caro.
    Escreve que vivemos um paradigma cavaquista. E o paradigma socrático não existiu?
    PMP o circulo é mais largo e, no fundo, igual nas personagens que por ele vão pasando.
    Quero, contudo, deixar bem claro que todas as ideias estruturantes que apontou merecem o meu apoio.
    Concordo, em absoluto, com o pragmatismo do seu último parágrafo.
    Recorda-se, seguramente, de eu ter levantado, há já alguns meses a questão da TSU que nunca mais era implementada e constava do acordo com a troika.
    Esqueça. Não vai ser mexida porque, como sabiamente, argumentou o Prof. Marcelo, o primeiro a quem ouvi esta alusão, iriamos ser cobaiais. E isso a malta não gosta.
    PMP é de agentes de mudança que nós carecemos. Será este Governo?
    Tomara que sim. Mas o tempo já vai passando.
    Cumprimentos

  26. PMPa 14 Out 2011 as 12:12

    Caro JM,

    O paradigma socratico é uma extensão para pior do cavaquista, mas no fundo parte das mesmas premissas :

    . aparelho estatal burocrático inutil + obras públicas à grande + moeda forte + impostos altos + comércio livre global + centralismo = desenvolvimento !!!

    Ma o inventor é o Cavaco mesmo, até porque já em 1980 como ministro das finanças de Sá Carneiro inventou uma revalorização do escudo !!!

    Mas os puristas dos mercados perfeitos, livres, eficientes e racionais vão continuar a dominar a estratégia do governo, e é nesses que temos de bater, senão vai ser o empobrecimento lento mas continuado.

  27. quelhas motaa 14 Out 2011 as 13:30

    PMP
    Dá-me a ideia que a sua lógica está com pouca «lógica».
    Acaba de dizer:”aparelho estatal burocrático inutil + obras públicas à grande + moeda forte + impostos altos + comércio livre global + centralismo = desenvolvimento !!!
    Repare que a única componente da sua fórmula aonde há «mercado» é: «comércio livre global». Tudo o resto: aparelho estatal burocrático, obras públicas à grande, moeda forte e centralismo, é Estado.
    Ou seja, quando se refere aos “puristas dos mercados perfeitos, livres, eficientes e racionais vão continuar a dominar a estratégia do governo, e é nesses que temos de bater, senão vai ser o empobrecimento lento mas continuado.”, eu não vejo aonde estão «esses puristas dos mercados perfeitos …» no Estado.
    Pelo contrário, o que eu vejo no Estado são precisamente aqueles que acham que é «o aparelho estatal burocrático inutil + obras públicas à grande + moeda forte + impostos altos (+ comércio livre global) + centralismo» que vai criar desenvolvimento.
    A sua tese, lembra-me as teses do PCP e do BE que dizem que Portugal está sob ataque do ultra-liberalismo quando, de facto, Portugal (a sua sociedade civil) está há muito sobre o ataque do seu próprio Estado e daqueles que tomaram conta dele. Mas, do PCP e do BE nem me admira essa tese, já que acham que um Estado ainda «mais pojante», mais omnipotente e omnipresente – mais totalitário do que já o é – é a «solução» do País.

  28. PMPa 14 Out 2011 as 13:43

    QM,

    Vou explicar a minha lógica :

    Você confunde o que é uma questão interna relativamente simples, ou seja os gastos inuteis do monstro estatal, com a questão da “guerra” económica que se trava ao nivel dos sectores de bens transacionáveis´.

    O monstro burocrático inutil estatal deve ser rapidamente extinto, acho até que este governo está a ser demasido lento no corte do Estado Anti-Social.

    O que eu digo e está comprovado, é que nenhum país se desenvolveu deixando o sector privado entregue a si próprio a concorrer contra os gigantes mundiais, todos eles apoiados no passado e alguns ainda agora pelos seus estados de forma explicita ou implicita.

    Essa tese dos mercado perfeitos e livres é uma fantasia completa, é uma das lendas que grassa na economia sem qualquer fundamento concreto e histórico.

    Ainda para mais nesta altura, onde o mundo inteiro tem excesso de capacidade industrial, excesso de mão-de-obra e execesso de empresas altamente competitivas.

  29. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 14:38

    PMP, JM, QM

    Desculpe, mas isso de o monstro estatal estar a ser encarado é negado pela evidencia da falta de medidas de ontem, só mais do mesmo não é mudança!

  30. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 14:48

    QM, JM

    Desculpem, concordo quase que completamente com vocês, estamos a dizer o mesmo, acho eu, o post anterior já devia ter saido, só que a net junto á praia não plantada nesta bucólica zona centro, está le n t t a !

    Vamos lá ver se este sai a horas e não vai baralhar o debate

  31. quelhas motaa 14 Out 2011 as 14:58

    PMP
    Ainda «volto», mas gostaria de ver «mais» comentários.
    A sua análise sobre a sociedade portuguesa está correctíssima. De facto, ”aparelho estatal burocrático inutil + obras públicas à grande + moeda forte + impostos altos (+ comércio livre global) + centralismo» foi visto como fonte de desenvolvimento. Isto é o Estado – e um concepção absolutamente estatizante do que deve o modelo-de-desenvolvimento – a operar e, sem dúvida, a conduzir o País à ruína.
    Não consigo é entender como retira daqui, da sua correctíssima observação, que são os liberais e ultra-liberais a comandar este País. Pode até dizer que uma máfia tomou conta deste país, ou que o Estado foi tomado por uma ladroagem ou por uma escol de incompetentes, o que quer que seja; mas, que foi um modelo liberal que provocou isso, é que não pode dizer.
    O outro aspecto, é dizer que como tudo isto é culpa dos liberais (apesar da sua própria análise empírica o desmentir), então (conclusão lógica) temos de fazer o oposto que se vinha a fazer: fazer «mais» Estado – ainda que com menos gorduras.
    Ora, é isso que eu digo que está errado. É que Portugal ainda nem experimentou ser «liberal»; nós não sabemos o que é isto da sociedade-civil existir e participar, nós nem sabemos o que é uma sociedade civil próspera, capaz de decidir sobre a sua vida sem ter de pedir esmolas ao Estado para que possa «minimamente» fazer-se aparecer.
    Bem…, eu penso que seria bom seguir a sugestão de julio moreira de debates «presenciais» – talvez ele pudesse tomar a iniciativa. É muito difícil, e poderá tornar-se improprio, fazer aqui um debate que, pelo seu teor, exige uma argumentação longa e «discutível».

  32. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 15:07

    Parece que saiu a horas!

    Só quero acrescentar que considerar que tudo pela iniciativa privada tambem não é verdade em Portugal já antes de 1400, quanto mais desde 1790 (A.S).

    Se se vir em paises de igual tamanho e com o passado comercial semelhante e até mais recente (Holanda Dix It) a iniciativa tem a mão estatal em ligação com a sociedade civil.

    O que não pode é ser Corporativo (ou privado) vs Estatal neste esquizofrénico percurso , que não leva a lado nenhum!

    Mas para isso é necessário ter uma estratégia (nacional ou regional) minima e não andar a reboque das modas de momento.

    Não é assim que se faz numa em nenhuma empresa, pelo que muito menos será o que se deve fazer num país/região.

  33. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 15:20

    Mais!

    Esta colaboração estratégica, jà foi conseguida antes em Portugal, só que quem perde a noção da história está condenado a repetir, qual Sísifo, os mesmos erros.

  34. PMPa 14 Out 2011 as 15:29

    QM,

    Os apologistas dos mercados perfeitos , racionais e eficientes não são liberais , são anarquistas utópicos , são na prática anti-liberais porque deixam o caminho aberto aos estatistas , como se viu na ideologia cavaquista / socratista, que onde convivem alegremente estas duas doutrinas , ambas nocivas como está demonstrado à exaustão em Portugal.

    Os verdadeiros liberais são aqueles que aplicam o metodo cientificio á economia , que analisam a realidade e que apresentam medidas de acordo com a realidade e não de acordo com as suas crenças anarquistas aplicáveis apenas a um mundo “congelado” e suspenso no tempo que não existe.

    O sector privado português por si só não tem capacidade de competir no mercado global, contra empresas escudadas no presente ou no passado recente em estados fortissimos.
    Se tivesse então teria aproveitado a época de juros baixos dos ultimos 15 anos.
    O argumento que o estatismo dos ultimos 20 anos impediu o sector dos bens transacionáveis privado de crescer é falso.

  35. julio moreiraa 14 Out 2011 as 15:54

    Meus caros
    PMP, Quelhas Mota e Jorge Bravo.
    E que tal, para simplificarmos o debate, chegarmos á conclusão que Portugal, pelo menos nas ultimas decadas, nunca teve uma estratégia claramente definida, assumida e implementada, a nivel económico?
    Isto apesar de haver necessidade de aprovar, juntamente com o OE, um documento a que, pomposamente, chamavam de Grandes Opções do Plano.
    Agora acho que já caíu em desuso mas, devo confessar, não lhe noto a falta.
    A meu ver Estado e Sector Privado devem ser duas realidadaes complementares e não antagónicas.
    Óbviamente cada um a desempenhar o seu papel. E, já agora, a convir que o desempenhem bem.
    Não tem sido manifestamente o caso e é redundante assinalar as causas.
    Confesso que depois do anúncio destas medidas de “emergencia” estou curioso por saber o resto do documento e, nomeadamente, a adopção de medidas de incentivo á economia.
    Que, devo confessar, a meu ver e dada a urgencia nem deveriam esperar pelo Orçamento. A necessidade da sua adopção é por de mais evidente.
    De contrario é austeridade em cima de austeridade, e o doente morre da cura.
    Cumprimentos

  36. PMPa 14 Out 2011 as 17:00

    JM,

    É quase impossivel que um crente nos mercados perfeitos , racionais e eficientes possa aceitar que o Estado pode ajudar o sector privado a ser mais eficiente e ajudar uma sociedade a competir económicamente nos mercados globais.

    Esta é uma batalha ideológica com pelo menos 200 anos.

  37. quelhas motaa 14 Out 2011 as 17:05

    Bem… como disse «não queria voltar», mas…
    Penso que aqui ninguém defendeu uma sociedade anarquista. Penso pois que também não será necessário dizer que o Estado é importante. Isto é ponto assente. O que ainda não é ponto assente, é se a sociedade civil deve existir ou não – já que na maior parte dos Estado-países do planeta não há sociedade civil. Em Portugal, também não há – e, a que há é a «fingir», já que vive dos subsídios do Estado. Portugal não é uma «Nação com Estado», é um »Estado com nação».
    Afinal, se num «Estado com nação» se levanta alguém a dizer que é preciso uma sociedade civil activa, capaz de decisões autónomas e com iniciativa, vem logo quem diga: é anarquismo, é ultra-liberalismo, é o estúpido do mercado, etc.
    Ainda me lembro do Presidente Sampaio que na introdução de uma tradução de um livro de um economista americano afirmava o contra-senso de se discutir em Portugal uma diminuição do papel interventivo do Estado na economia, quando nos EUA se estava a discutir o seu aumento. O Presidente Sampaio – que considero uma pessoa honesta e de princípios -, nunca entendeu que estava a referir-se a realidades incomparáveis nos termos em que ele o estava a fazer. Os EUA são uma «Nação com um Estado», por isso aí coloca-se o problema do aumento do poder do Estado (por exemplo, Obama não conseguiu passar o seu programa de relançamento da economia). Portugal é um «Estado com nação», é aqui que a questão da cidadania se coloca – porque aqui seria o País a nunca conseguir fazer parar os Obama’s nacionais (Sócrates e etc.).
    A Cultura é uma atrapalhação. Prefiro estudar matemática e física – aqui os pré-conceitos, que também existem, são mais fáceis de superar. Bem…, todos falamos em «mudar», até todos caracterizamos as situações de forma muito similar, mas subsiste: de que mudança falamos?

  38. julio moreiraa 14 Out 2011 as 17:16

    PMP
    Para mim, perfeição, seja a que nivel fôr que estejamos a tratar, é coisa inexistente.
    Sou adepto, como penso ter deixado, explicado de um papel interventivo a nivel económico quer do Estado quer do sector privado.
    São duas realidades distintas, com tarefas distintas, mas complementares e não sobrepostas.

  39. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 17:17

    Desculpem!

    Mas, se numa empresa fosse apresentado um plano de contigência sem ser apresentado simultaneamente o plano de fomento (não ter medo da palavra, ajuda a pensar!), estava tudo despedido!

    Pelo que se terá de inferir que não existe plano nenhum!

    Isso aliado á miopia Geoestratégica reinante, cá e lá, faz temer o pior.

  40. PMPa 14 Out 2011 as 17:17

    QM,

    A meu ver o debate deve centrar-se no tema economia e não em questões de indole cultural ou moral.

    Eu digo que uma analise racional do passado mostra que os mercados não são perfeitos, nem eficientes nem racionais, e mostra que nenhum país se desenvolveu industrialmente sem uma cooperação entre o sector público e o sector privado.

    Digo também , que os anarquistas pseudo-liberais são na prática anti-liberais, pois apregoam fantasistas soluções que empobrecem as sociedades , porque repousam em premissas falsas, nocivas para a sociedade.
    Do mesmo modo os estatistas tendem a resvalar para regimes inviáveis económicamente, porque impedem o sector privado de atingir o seu potencial

    A premissa que o estado é mau e o privado é bom é falsa em termos de economia. o sector privado para ser eficaz precisa do estado.

    Assim temos duas doenças que precisamos de erradicar : os estatistas e os anarquistas .

  41. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 18:28

    PMP

    Não posso concordar que não se discuta o problema Moral e Cultural, porque isso acaba por estar na base da falta de Ética que está em pano de fundo de toda estra trama.

    Assim como não devemos esquecer a Geoestratégia, pois ela condiciona mandatóriamente as decisões a tomar.

    Concordo, está claro, que temos que focar na Economia, mas não devemos ser reducionistas e fazer a ablação de uma das partes do problema.

    Com essas bases deve-se desenhar então, um plano Geopolitico de geometria variavel, com um plano de fomento de curto, médio e longo prazo.

    Não há partes que possam ser excluidas do todo.

    Mais uma vez recordo que:

    “O destino não é uma questão do acaso, é uma questão de escolhas” W.J.B.

    Por isso, pelo menos uma vez na vida dos ultimos 30 anos, temos que fazer as coisas minimamente bem feitas, não basta empurrar para a frente os problemas e esperar que eles se resolvam por si só.

  42. Jorge Bravoa 14 Out 2011 as 19:10

    E já agora.

    Como fazer um orçamento de estado:

    “O orçamento nacional deve ser equilibrado.
    As dividas publicas devem ser reduzidas, a arrogancia das autoridades dever ser moderado e controlado.
    Os pagamentos a governos devem ser reduzidos, se a nação não quiser ir á falência.
    As pessoas devem aprender novamente a trabalhar, em vez de vover por conta publica”

    M.T.

    Por isso, não é necessário inventar nada!

  43. Anunesa 18 Out 2011 as 7:32

    A Europa, desde a sua fundação que tem Principios.
    Todos eles admiráveis e que não deixam nada a dever aos inscritos na Constituição Americana ou em qualquer outra Constituição Mundial.
    O problema é que esses Principios pretendem transformar um circulo num quadrado.
    E, em Politica Internacional, essa transformação apenas pode ser obtida pelo caminho dos egoistas interesses nacionais.
    Não é fácil, mas é possivel.
    Mas, convenhamos, não é essa a função dos governantes dos Países.
    A esses, quais Albertos Joões Jardins, compete-lhes zelar pelo seu povo (é esse o seu mandato).
    Onde a Europa anda há muito arredada de Estadistas, capazes de, pela gestão dos interesses nacionais, fazerem a quadratura do circulo, é ao nivel da Comissão Europeia e das suas lideranças.
    E, lamentavelmente, o nosso compatriota é apenas mais um grande e mediocre exemplo dessa triste realidade.

  44. Carlos Meloa 22 Out 2011 as 20:17

    Quando olhamos para alguma indecisão dos actuais líderes europeus quanto à tomada de medidas para ultrapassar a chamada crise do euro (que deveria ser mais adequadamente designada de crise dos países com elevada dívida pública e privada e fraco crescimento económico), criticamo-los, evocando, líderes de outrora que se destacaram na constituição de uma união económica e política.
    Porém tais líderes nunca foram confrontados com nenhuma situação semelhante à actual: a de terem de pagar, para assegurar a estabilidade do euro, as dívidas dos países em dificuldade, ou seja que contraíram irresponsavelmente uma dívida acima das suas possibilidades de pagamento, pelo menos num contexto global adverso, de grande falta de liquidez nas tradicionais fontes de financiamento das dívidas públicas (provavelmente, mais vocacionadas para aplicar os seus fundos em dívidas dos países emergentes, do que na dos países em contração).
    E logo os acusamos de egoístas.
    Mas olhemos para nós, aqui neste cantinho. Alguém está disponível para assumir as dívidas alheias? Pior ainda: veja-se o que se passa a propósito do OE2012 e dos cortes de subsídios. Naturalmente os atingidos por esses cortes logo vieram a terreiro afirmar a injustiça de tal medida, pois fazia recair sobre o trabalhador público todo o peso do sacrifício (ou pelo menos a parte de leão). Se o sacrifício fosse estendido à generalidade da população, a cada um caberia menor sacrifício, e defender-se-ia a justiça dos princípios. Do privado vieram logo as tradicionais vozes, bramindo contra tal propósito, dizendo que era o público que deveria pagar o sacrifício.
    Não é isto egoísmo?
    E o que é que queremos então? Se entre nós somos egoístas e fazemos vingar os princípios que assentam nesse egoísmo, que moral temos então para apelar à solidariedade dos alemães ou franceses, para suportarem parte da carga dos nossos sacrifícios.
    Eles parvos não são!
    Se déssemos a imagem de um povo solidário, bem diferente seria. Não lhes dávamos motivos para esse egoísmo. Mas assim não. Continuarão a olhar para nós com algum desdém, e nada farão para nos ajudar efectivamente.