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Nov 11 2011

“Get your act together”

Publicado por Anunes a 10:18 em Economia,Política Nacional

Parece existir alguma dificuldade, a nivel Nacional e a nivel Europeu, em compreender os diferentes impactos (e custos economicos, politicos e sociais) que uma mesma medida de politica economica pode ter consoante a forma como é divulgada e implementada.
Veja-se por exemplo a questão da intervenção do BCE (Banco Central Europeu) na compra de Divida soberana nos mercados. Fazendo-o quase diáriamente, mas não o assumindo como uma clara medida de politica monetaria, o resultado tem sido uma enorme dificuldade, ou mesmo impossibilidade, em controlar em niveis aceitáveis as taxas de juro de diversos países Europeus, como Portugal, Espanha, Itália, Irlanda ou Grécia. Além disso esta intervenção esgota recursos do BCE e aumenta os riscos do seu balanço o que, no fim do dia poderá ou obrigar à sua recapitalização, situação que a Alemanha rejeita absolutamente pois teria de recorrer mais uma vez aos seus contribuintes, ou colocar as “rotativas” a trabalhar emitindo moeda e arriscando-se a provocar incontroláveis pressões inflacionistas.
Por outro lado, se anunciasse claramente que, sem tempo determinado ou limite de montante, passaria a assumir esse tipo de politica, o resultado seria uma imediata queda das taxas de juro para limites normais, sem práticamente a necessidade de … qualquer tipo de gasto.
Isto porque os mercados deixariam de se focar na probabilidade de perda ilimitada dos seus investimentos, o que atira as taxas de juro para valores de 15% e 20%, para se passarem a focar num, eventual, risco de inflação, o que poderia puxar as taxas para niveis de 4% ou 5%, mas não mais do que isso.
Qual o problema? As taxas alemãs, agora abaixo de 2%, tambem iriam para esses niveis, deixando de beneficiar do seu papel de “moeda de refúgio do Euro”.
Tambem em Portugal uma questão semelhante se coloca neste momento. Se o Governo fizer transparecer que as medidas restritivas sobre os Portugueses são meramente temporárias e concentradas no tempo, e conseguir ser credivel, os efeitos sobre o PIB por via de uma queda do Consumo privado serão diminutas e mais faseadas no tempo. Porquê? Porque se os Portugueses não as assumirem como uma redução do seu rendimento disponivel permanente, ajustarão a sua limitação temporaria de rendimento essencialmente através da diminuição de consumos de bens importados (mudar de automóvel, férias no estranjeiro, etc, etc).
Por outro lado, quando um inábil Primeiro Ministro diz que vamos empobrecer, corre-se o risco dos cidadãos assumirem que a sua perda de poder de compra irá ser acentuada e permanente, começando desde já a ajustar os seus hábitos de consumo em conformidade, agindo também sobre bens e serviços não importados (deixam de comer nos restaurantes, tiram os filhos das escolas privadas, sobrecarregando o sector publico, etc,etc) e reforçando a queda do PIB.
Num caso, a grave recessão económica prevista para 2012 pelos profetas da desgraça e por uma Comissão Europeia irrelevante e desorientada, pode acabar por não passar de uma miragem de tecnocratas bafientos.

No outro, nada nos poderá valer.

18 comentários até agora

18 Comentários para ““Get your act together””

  1. PMPa 11 Nov 2011 as 12:03

    Anunes,

    A tese de que a compra de divida pelo BCE causa inflação é falsa.

    É uma tese falsa repetida milhões de vezes para que seja considerada verdadeira por quem tem interesse em manter juros altos na economia.

    A compra de divida simplesmente é uma troca de activos de longa duração por curta duração (moeda).

    Pode no curto prazo através da criação de expectativas aumentar a inflação. Mas no médio prazo a inflação está apenas dependente da procura e da oferta.

  2. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 15:41

    Meu caro Anunes

    Tem toda a razão, mais uma vez toda a razão, só parece que os Disaster Boys, que estão conduzindo todo este processo parecem estar competindo para ver quem consegue partir a Europa e o Mundo o mais depressa e rápido possível no fundo dos infernos.

    Há alguns anos os “Serôdios Icaros” da escola de Chicago declaram a morte de Keynes e do New Deal e tornaram-se apologistas do Neo-Qualquer-Coisa, aplicaram as suas teorias apressadamente e fizeram após um eufórico pico de bons resultados, primeiro no Chile e de seguida um pouco por toda a América do Sul e em mais um ou outro sítio, o desastre a médio prazo e a falta de resultados sustentáveis foi tal, que levou a frontal indignação dos restantes economistas e estadistas mundiais.

    Então esses “Serôdios Icaros” foram-se acantonar em lugares chave de organismos directivos financeiros mundiais, na Finança de Casino e em algumas Corporações, tendo de seguida conseguido manobrar políticos por todo o lado e assim obtido a desregulação dos mercados, iniciando assim a cascata de desastre que se vive hoje e competindo agora pela linha da frente no batalhão de demolição europeu e por arrasto, pelo arraso mundial.

    É por isso que é fundamental tirar esta gente e estes políticos fora do cenário mundial.

    A discussão do necessário, já transcende de medidas Economicistas e Financeiras do Quotidiano, do tipo TSU’S, e outras medidas avulsas e passa pela mudança rápida do mote Económico e Financeiro e pela Regulamentação Férrea dos Mercados Financeiros, isso tem pelo menos a seu favor 50 anos de resultados já testados e comprovados, não leva ao enriquecimento rápido e especulativo, paciência, trabalhem honestamente como o resto das pessoas de bem!

    Estranhamente ou talvez não, o silêncio da generalidade dos economistas e financeiros grita!

  3. PMPa 11 Nov 2011 as 16:23

    JB,

    Eu tenho um filho no 2º ano de economia e é hilariante a miscelânea como é apresentada a macroeconomia, o sistema monetário e o sistemas bancário.

    É uma vergonha que no ensino superior possam ser apresentadas postulados sem a sua fundamentação de base. É anti-ciência !

    Estes alunos, década após década, saem deste curso sem a minima ideia em como funciona o sistema monetária e depois chegam aos bancos centrais e à politica e só fazem asneiras atraz de asneiras.

    A maior parte das asneiras dos economistas não é por maldade é por ignorãncia do funcionamento dos mecanismos monetários.

    Como pode isto acontecer num mundo tão avançado tecnológicamente ?

  4. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 16:51

    PMP
    É, antes foi a toda mandatória “sebenta do norte”, agora pelos visto são os “postulados infundamentados” lindo!

    Do dogma para o ridiculo!

    Ignorãncia demais é só… burrice!

  5. PMPa 11 Nov 2011 as 18:10

    JB,

    Por exemplo , isto não se ensina nas faculdades de economia apesar de escrito em 1954 e se referir a crenças anteriors :

    loans have always created deposits, the following is a passage from History of economic analysis
    By Joseph Alois Schumpeter

    Pg 1080.

    But if the owners of those bags wish to use them, they have to recover them from the borrowers who must then go without them. This is not so with our depositors and their gold coins. They lend nothing in the sense of giving up the use of their money. They continue to spend, paying by check instead of by coin. And while they go on spending just as if they had kept their coins, the borrowers likewise spend ‘the same money at the same time.’ Evidently this phenomenon is peculiar to money and has no analogue in the world of commodities. No claim to sheep increase the number of sheep. But a deposit, though legally only a claim to legal-tender money, serves within very wide limits the same purposes that this money itself would serve. Banks do not, of course, ‘create’ legal tender money and still less do they ‘create’ machines. They do, however, something – it is perhaps easier to see this in the case of the issue of banknotes-which, in its economic effects, comes pretty near to creating legal-tender money and which may lead to the creation of ‘real capital’ that could not have been crated without this practise. But this alters the analytic situation profoundly and makes it highly inadvisable to construe bank credit on the model of existing funds’ being withdrawn from previous uses by an entirely imaginary act of saving and then lent out by their owners. It is much more realistic to say that the banks ‘create credit,’ that is, that they create deposits in their act of lending, than to say that they lend the deposits that have been entrusted to them. And the reason for insisting on this is that depositors should not be invested with the insignia of a role which they do not play. The theory to which economists clung so tenaciously makes them out to be savers when they neither save nor intend to do so; it attributes to them an influence on the ’supply of credit’ which they do not have. The theoy of ‘credit creation’ not only recognizes patent facts without obsuring them by artificial constructions; it also brings out the pecular mechanism of saving and investment that is characteristic of fullfledged capitalist society and the true role of banks in capitalist evolution. With less qualification than has to be added in most case, this theory therefore constitutes definite advance in analysis.

    Nevertheless, it proved extraordinarily difficult for economists to recognize that bank loans and bank investments do create deposits. In fact, troughout the period under survey they refused with practical unanimity to do so. And even in 1930, when the large majority had been converted and accepted that doctrine as a matter of course, Keynes rightly felt it to be necessary and to reexpound and to defend the doctrine at length, and some of its most important aspects cannot be said to be fully understood even now.

  6. Carlos Jorge Morais Louresa 11 Nov 2011 as 18:47

    Senhores Autores
    Excelente artigo e bons comentários.
    Quando não se possui uma forte liderança num projecto, de qualquer natureza, o risco de não concretização do seu objectivo é muito elevado.
    O líder poderá não ser o mais apetrechado em termos de conhecimentos teóricos ou práticos da ciência Económica, por razões várias, mas se o for na verdadeira acepção da palavra ou seja um verdadeiro líder, não terá problema algum de se reunir com os melhores.
    Digo isto porque parece-me evidente a falta de uma liderança forte, determinada e sem medo de ninguém no nosso País.
    Na Europa tenho o mesmo sentimento. Mas fico-me por Portugal.
    Tem de haver um líder que reúna os “ bons de Portugal “ e se feche num local longínquo de tudo e de todos, mas cá dentro, durante o tempo necessário para se definir um rumo/ carta magna para Portugal válida para os próximos vinte anos.
    O verdadeiro líder é aquele que sabe que pior que tomar uma decisão errada é não tomar alguma decisão.
    Senti-me envergonhado e triste quando ouvi falar de uma zona euro mais pequena com a exclusão de Portugal e da Grécia.
    Senti termos sido tratados como gente de segunda categoria.
    Um País com quase novecentos anos de história não pode ter um Povo de segunda.
    Por isso ao ler o artigo e comentários sou levado a crer na falta de liderança existente na Europa.
    Mas nós Portugal temos líderes suficientes para pagarmos o que devemos, ponto de honra, e definirmos o traçado/rumo certo para sermos o que sempre fomos: “ ..,Nobre Povo valente e Imortal…“, deste Portugal.
    Os Economistas sérios e conhecedores dos processos mais correctos para sairmos desta situação que sejam Líderes; caso não tenham perfil de liderança, o que duvido, elejam um para seu interlocutor.
    Como um médico amigo me disse um dia: “ se você colocar vinte génios numa equipa ela nunca funcionará; terá de haver uma pessoa normal” .
    Como costumo dizer, tem de haver um “ marreta líder “, para colocar as nossas mentes brilhantes a elevar o País.
    A palavra “ Marreta “ foi um dia usada pela senhora socióloga Maria Filomena Mónica num contexto semelhante. Portanto marreta não é depreciativa.
    Sobre o nosso actual 1º ministro dou-lhe o benefício da dúvida sobre a sua capacidade de liderança.
    Isto porque “ só quem mora no convento é que se sabe o que lá vai dentro”.
    Deveríamos começar pela Educação e fazer um pacto partidário para os próximos quinze a vinte anos; para SE cumprir um rumo certo.
    Depois tudo o resto que é bom viria naturalmente.
    Mas “façam” na Educação a nossa tábua de salvação; que seja UMA TÁBUA DE PAU PRETO, ou mais forte ainda, a minha ignorância não permite mais, para ser infinitamente forte e não quebrar com a força dos ignorantes, corruptos etc.
    Muito obrigado
    Saúde.

    Carlos Loures

  7. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 21:35

    Carlos Loures

    Antes de mais atente-se que a escala da percepção humana começa na inconsciência (ausência de percepção da realidade), passa à ignorância (percepção da existência da realidade, mas sem conhecimento), segue-se o conhecimento (percepção sensorial da realidade), o saber (percepção mental da realidade), e por fim a consciência (percepção sensorial, mental e funcional) da realidade.

    Quando se atinge a consciência não se pode negar mais a acção.

    Por isso quando é imperioso corrigir o curso dos acontecimentos, não o fazer, ou não lutar com todas as forças quando se está em posição de o poder fazer, é cobardia e normalmente criminoso.

    Na situação actual não se pode ter contemplação e tem que se ser implacavel com tanto adiamento, tanta hesitação, tanto oportunismo e tanto aproveitamento.

    Por isso hoje não se pode desculpar ou dar beneficios da duvida a quem não faz o que deve e isso é valido transversal e verticalmente em todas as nações.

  8. Andre Barataa 11 Nov 2011 as 22:29

    Caros debatedores,

    A pergunta que tem de ser feita é simples e clara: «Por que é que o Banco Central Europeu não atua como o Banco Federal Norte-Americano?» (Cavaco Silva, hoje)

    A resposta que tem de ser dada não é menos clara: «O Banco Central Europeu deve manifestar a disponibilidade para uma intervenção ilimitada no mercado secundário da dívida pública daqueles países que, sendo solventes, enfrentam problemas de liquidez» (Cavaco Silva, hoje)

    Votos de bom fim de semana!
    AB

  9. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 22:52

    Andre Barata

    Porque carga de agua é que só agora esse senhor vem co me çar… a por os pontos nos is?

    Mais vale tarde que nunca, mas quando o neofilo aderente quase o insultou e insultou todos nós, ficou calado?

    Falta-lhe coluna de estadista. É pena… para todos nós.

  10. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 22:56

    PMP

    Certissimo a sua opinião e obrigado pelo texto (sabia que existia, mas não o encontrei quando se tornava necessário), muito obrigada mais uma vez.

  11. vbma 11 Nov 2011 as 22:59

    De qualquer maneira, parece-me faltam variáveis nestes raciocínios acerca do euro. As dívidas dos estados da zona euro são contraídas no mercado primário junto de que credores? Bancos de investimento, companhias de seguros, bancos centrais. Recear incumprimentos é o mais natural, dado o baixo crescimento das economias da euro-zona. Transaccionar, endossar essas obrigações para terceiros, abaixo do nominal, encarecendo o juro, é reflexo obviamente sadio. Especular que os perigos são ainda maiores do que se julga e comprar os títulos já muito baratos na expectativa de que o BCE os resgate acima do preço de compra pago, também é lógico e vai-se fazendo negócio. E para o próprio BCE acabar por ganhar neste processo, nada como realmente as economias da zona começarem a crescer mais. Ora, esta evolução pressupõe que os bancos exteriores à zona euro, que encetaram a subscrição inicial da dívida contraída pelos europeus da moeda única, e que, receosos, começaram a desfazer-se dos seus créditos, hajam aplicado esses excedentes de liquidez, no seu próprio desenvolvimento e consumo corrente, contrapartida requerida para o relançamento das economias do euro. Assim, boa notícia será a China atenuar os seus excessivos superávits comerciais, assim como é animador a Rússia ter chegado a acordo para participar na organização internacional de comércio. O equilíbrio do euro exige a observação do yuan, do dólar, da libra, do yen, do franco suiço, etc. Os europeus têm de deixar de ser “parvos”.

  12. Andre Barataa 11 Nov 2011 as 23:20

    Meu caro Jorge Bravo,

    Eu focar-me-ia sobretudo no conteúdo da pergunta e não tanto no autor da pergunta, pois é a pergunta que tem de ser feita neste momento sem subterfúgios. Ainda assim, congratulo-me que tenha sido formulada pelo PR (e não tanto CS).

    A resposta é um pouco menos clara do que eu disse ser, pelo que me penitencio. Tenho dúvidas que faça grande sentido, caso houvesse maior intervenção do BCP, o que é imprescindível!, distinguir países insolventes, em concreto a Grécia, e países solventes com problemas de liquidez, que creio, na intenção do PR, seriam Portugal e, talvez, Itália.

  13. Jorge Bravoa 11 Nov 2011 as 23:59

    André Barata

    Tem razão a questão está obviamente bem formulada e melhor respondida-

    Mas não é dispiciendo, o só agora se estar a reagir.

    Para mim o facto não tem a haver com a pessoa em si, mas tão só com o que já referi aqui hoje quanto á percepção e ao conhecimento.

    Por isso é que fui duro na mesma, mesmo estando a questão bem formulada e melhor respondida.

  14. PEDRO PINHEIROa 12 Nov 2011 as 0:06

    O BCE tem de asumir o papel de credor de último recurso se quiser salvar o euro e a Europa.

  15. PEDRO PINHEIROa 12 Nov 2011 as 0:06

    correcção:assumir

  16. Jorge Bravoa 12 Nov 2011 as 0:29

    Pedro Pinheiro

    Isso! mesmo com danos tão extensos talvez ainda se consiga, mas sem avançar JÁ o desastre vai ser retumbante para todos, Alemanha incluido.

  17. Jorge Bravoa 12 Nov 2011 as 9:12

    “Gentlemen, there is no more money. Now is the time to think!”
    Admiral Lord Fisher

  18. ricardo saramagoa 15 Nov 2011 as 11:49

    Caro anunes
    Tem toda a razão no que respeita aos efeitos sobre as espectativas dos mercados de um anúncio de intervenção ilimitado por parte do BCE.
    Um tal propósito com respaldo político dos países membros do euro, faria certamente convergir as taxas de juro da zona euro e poderia estabilizar a crise financeira actual.
    A questão que se põe, e que trava sobretudo a Alemanha, é de como evitar que os países com mais elevada propensão para a indisciplina financeira voltem a cair no endividamento fácil, adiando as reformas de que as suas economias e sectores públicos há muito necessitam.
    Ouvindo com atenção os comentários e as discussões políticas na Alemanha, parece haver disposição para encontrar uma solução, desde que sejam dadas garantias de reforma dos tratados e das políticas nacionais.
    A Alemanha está a jogar este jogo perigoso, mantendo a crise acesa para obrigar às reformas políticas e institucionais que lhe dêem as garantias que pretende.