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Dez 13 2011

CITAÇÃO COMPLETA

Publicado por VB a 12:45 em Artigos Gerais

“Os agentes económicos individuais do sector das Famílias têm um “ciclo de vida” assumidamente finito e, por isso, a sua capacidade de gerar rendimento regular é normalmente temporária, correspondendo, grosso modo, à sua vida activa. Por isso não podem funcionar permanentemente em dívida, tendo que planear a sua vida financeira em função do seu ciclo de geração de rendimento. Assim, é natural que, no início da sua vida activa, as perspectivas de rendimento futuro sejam mais elevadas no futuro do que no presente, ao mesmo tempo que uma grande parte das suas necessidades “de instalação” – casamento, filhos, etc. – se concentre na fase inicial dessa vida activa. Correspondentemente, é natural que esses agentes sejam deficitários se endividem sobretudo entre o início e o prospectivo meio da vida activa e que se tornem aforradores líquidos no período seguinte, pagando as dívidas contraídas.

Com as Empresas, o Estado e o País como um todo (i.e. o agregado da Economia Interna), o processo é diferente. Não existe um horizonte temporal limitado para a sua existência, pelo que o planeamento financeiro da sua vida é diferente do caso dos particulares . Dessa forma, é razoável assumir a sua existência como prospectivamente infinita, pelo que é também razoável que funcionem saudavelmente com endividamento permanente, que vai sendo periodicamente renovado, e sem que haja a expectativa – temporalmente definida – de que tal endividamento venha a ser totalmente pago.

De facto, nesses casos, um certo nível de endividamento é duradouramente sustentável se o seu crescimento e o dos recursos necessários para o seu serviço regular – nomeadamente o pagamento periódico de juros – for mais lento do que o crescimento das suas receitas. Ou seja, no caso do Estado e da economia como um todo, se aquele crescimento for mais lento do que o crescimento da economia (v.g. do PIB) .

Quando os valores em dívida, nomeadamente do Estado ou do País, crescem mais rapidamente do que a economia incorre-se numa situação de potencial sobre-endividamento, de que resultam fundadas dúvidas sobre a solvabilidade do devedor. Quando uma tal situação se perspectiva, o acesso a novos créditos torna-se gradualmente mais difícil, colocando dificuldades à própria renovação dos que, entretanto, se vão vencendo. O que acaba por alimentar a percepção de uma prospectiva insolvência do devedor. Para reverter um tal processo e restabelecer a confiança na sua solvência, o devedor terá que, ou aumentar o crescimento das receitas, ou diminuir o ritmo de endividamento (para o que terá que conter as suas despesas), ou obter uma combinação de ambos. Isto é, deverá encetar um processo de aproximação das suas necessidades e aspirações à capacidade de satisfação que o seu rendimento lhe proporciona.

Caso não consiga reverter a situação de desconfiança na sua solvabilidade, o devedor – Estado ou País, neste caso – verá ser-lhe fechado por completo o acesso ao crédito. E sem crédito, será forçado a ajustar, de imediato, as necessidades e aspirações à sua capacidade de gerar rendimento.

Note-se que, ao ser excluído do acesso ao crédito, o devedor (com relevante impacto macroeconómico), acaba por tornar a sua restrição de escassez de recursos activa para toda a economia.” (ECONOMIA, MORAL E POLÍTICA, págs. 79/81)

12 comentários até agora

12 Comentários para “CITAÇÃO COMPLETA”

  1. André Barataa 13 Dez 2011 as 13:53

    A citação só estaria incompleta se dela não constasse algum ponto, citável no texto de Vítor Bento, que contradissesse as declarações de José Sócrates. Não é esse o caso, como o demonstra a alegada “citação completa” do autor.

    AB

  2. VBa 13 Dez 2011 as 14:31

    Caro André Barata,

    Este post não tem nada a ver, directamente, com as declarações de José Sócrates. Tem apenas a ver com facto de, para as justificar, lhes ter sido associada uma citação (incompleta) de uma obra minha. E de eu não gostar de citações talhadas à medida, isto é, seleccionadas para se ajustar a uma tese prévia. Sobretudo quando me envolve a mim.

    Essa citação minha circula na net, é manifestamente incompleta, e tendo em conta o contexto a que foi associada, subverte o meu pensamento. E isso eu não gosto, pelo que me pareceu apropriado tentar corrigir o erro difundido, reproduzindo a citação completa.

    Mas, já agora e uma vez que invoca a associação feita, deixe-me explicar o seguinte: a “dívida” dos Estados (tal como a das empresas), enquanto stock e em abstracto, é, de facto, tendencialmente infinita. Mas essa “dívida” é composta por vários empréstimos FINITOS e esses empréstimos têm que ser pagos nas respectivas datas de vencimento. Em situação “normal”, isto é, quando os Estados (ou as empresas) têm crédito no mercado, esses empréstimos são pagos com o produto de novos empréstimos, pelo que a dívida vai sendo “rolada”. Mas para que este processo de “rolamento” seja possível, a situação financeira dos Estados (ou das empresas) tem que ser percebida como sustentável. De outra forma, os empréstimos que se vencem continuam a ter que ser pagos, mas, sem acesso a novos financiamentos por falta de crédito no mercado, têm que ser pagos com recursos gerados pelo próprio devedor. Mas têm que ser pagos!

    Resumindo: a “dívida” dos Estados é tendencialmente infinita, desde que estes tenham crédito no mercado, que lhes permita ir “rolando” os empréstimos que a consubstanciam; na ausência desse crédito, os empréstimos (e a “dívida” que estes consubstanciam) têm que ser pagos, sem possibilidade de “rolamento” (pelo menos até ao restabelecimento da confiança, ou crédito, dos mercados).

    É isso que a parte essencial omitida (mas essencial) da citação pretende significar.

    E, já agora, é essa a situação em que Portugal se encontra. Não vou discorrer sobre o porquê. Mas quem estiver interessado em saber a minha opinião, tem, neste blog, suficiente explanação minha sobre o tema.

  3. CDa 13 Dez 2011 as 15:53

    Caro Vítor Bento,

    Comprei recentemente a obra em questão, que está a ser uma leitura muito deveras interessante.
    Muitos parabéns.
    CD

  4. André Barataa 13 Dez 2011 as 16:03

    Caro Vítor Bento,

    A minha reacção ao título do seu post prendeu-se, no essencial, com o facto de eu próprio o ter citado, tendo muito provavelmente sido o primeiro a fazê-lo.

    (Cf. http://noreinodadinamarca.wordpress.com/2011/12/08/contra-argumentos-sem-querer-ser-do-contra-umas-quaisquer-declaracoes-de-jose-socrates/)

    Convém que fique claro, para si e para quem ler esta troca de comentários, que a citação que foi feita não o desmereceu, tendo vindo acompanhada do devido contexto, que ninguém realmente ignora, de divergência e crítica da governação do anterior executivo, liderado por José Sócrates.

    A citação que lhe foi feita, e precisamente pelo contexto que ninguém ignora, procurou exercer um efeito pedagógico sobre os Media (e alguns representantes da classe política, mesmo ex-governantes em governos de José Sócrates) no sentido de inibir a discussão puramente persecutória e pôr no seu lugar, o que realmente importa e falta no debate político em Portugal: a procura do melhor argumento. Creio que concordará com o que digo.

    Cumprimentos.

  5. PMPa 13 Dez 2011 as 18:29

    Caro VB,

    É completamente diferente estar a falar de “divida” publica num regime de moeda-fiat própria de um regime de moeda externa como é este Euro.

    Num regime normal de moeda-fiat a divida publica emitida nessa moeda não tem risco de incumprimento, pelo que pode ter um valor qualquer, limitada apenas pela inflação elevada e o deficit corrente que a despesa publica associada possa gerar, pois os fundos para a aquisição dessa “divida” vêm da própria despesa pública.

    Num regime de moeda-externa como é este Euro , existe risco de incumprimento porque o Estado tem de se financiar no “mercado” e os Euros têm tendência a sair do país , mal exista percepção desse risco de incumprimento.

    O caso do Reino Unido ilustra bem esta diferença abismal entre as duas situações.

  6. Jorge Bravoa 13 Dez 2011 as 23:29

    Troca de opiniões clarificadora! Já agora o livro é muito bom.

  7. Carlos Jorge Morais Louresa 14 Dez 2011 as 12:44

    Senhor autor do artigo e senhores comentadores

    A Citação Completa é um documento Educativo para todos aqueles cujo interesse único seja o aprender/reaprender/ promover o salutar diálogo e troca de ideias. Li com a atenção apropriada o artigo assim como todos os comentários, e em especial o do senhor André Barata. Isto sem desmerecimento pelos dos senhores PMP e Jorge Bravo.
    Compreendo o motivo da sua publicação para efeitos de anulação de eventuais dúvidas sobre o pensamento do autor do livro, Economia, Moral e Política.
    Acredito nas palavras escritas do senhor Jorge Bravo: “… o livro é muito bom “; acredito ainda mais na importância do tema da Dívida Pública na Citação Completa pela clareza da escrita empregada; acredito nas opiniões dos comentadores do artigo potenciadoras do esclarecimento das dúvidas criadas por justaposição de eventos e desatenção das pessoas pelas mais variadas razões; acredito no esforço dos milhares de agentes económicos individuais dos sectores das famílias para refazer a imagem de um Portugal Cumpridor das suas Obrigações; acredito que com as Empresas, o Estado e o País todo o processo da dívida seja diferente; acredito na falta da procura do melhor argumento no actual debate político em Portugal; acredito na Economia, Moral e Politica, título do livro; também acredito na frase “ O essencial é invisível para os olhos “ retirada da obra “ O Principezinho “ e inserida no Livro “ Tudo o Que Temos Cá Dentro “do Senhor Professor Daniel Sampaio; acredito nos “ Bons Portugueses “ para refazer Portugal sejam eles, cozinheiros, sapateiros, bombeiros, médicos, engenheiros, psicólogos, professores e por aí adiante; acredito no ensinamento crucial João Santos, Ensaios sobre a Educação, Ld. Livros do Horizonte, 1983, pg 302 “ … A criança aprende a ser Homem vendo-se ao espelho do que os adultos fazem e não apenas as coisas que eles dizem. Há palavras que se dizem, palavras que se lançam e palavras que se oferecem. (…). Aprende a falar antes de lhe falares. Fala-lhe com o coração mais do com a inteligência.”, inserido no livro “Vozes e Ruídos Diálogos com Adolescentes “ do senhor Professor Daniel Sampaio página 129 da Editora Caminho; acredito na excelência inquestionável de Eça de Queiroz, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Luís de Camões, António Aleixo, José António Saraiva, Padre Himalaya, General António Xavier Correia Barreto, Engenheiro José Cordeiro e todos os restantes “ Bons Portugueses “ conhecidos e dos Milhões de Anónimos também portugueses espalhados pelo Mundo.
    Mas para continuar a acreditar no meu País é preciso que os “ Actuais Bons de Portugal “ suspendam as suas divergências de várias naturezas e decidam “ Fazer Portugal”.
    Assim os senhores da Europa perceberão a razão de no Nosso Hino Nacional se poder ouvir e ler “ … Nação Valente e Imortal…”.
    Aos erros da escrita e possíveis interpretações como ofensas a alguém agradeço que aceitem desde já as sinceras minhas desculpas.
    São consequência da minha limitação na capacidade de expressão de ideias e nunca por negligência.
    Obrigado.
    Saúde.
    Carlos Loures

  8. PEDRO PINHEIROa 14 Dez 2011 as 14:35

    Excelente livro, sem dúvida
    Só queria deixar uma ideia que tenho grande dificuldade em perceber, como é que os nossos credores(os mais importantes) podem fazer a política que lhes convier, no fundo, parece-me que o mercado não funciona de forma livre, mas numa relação de poder que desprotege os devedores em detrimento dos credores. Compreendo e considero justo um país endividar-se conforme a sua capacidade produtiva para gerar rendimento, contudo, o que temos de questionar, é como foi possível os PIGS receberem empréstimos dos bancos franceses e alemães na ordem dos 900 mil milhões? Não foi para a retoma da Europa?? Naturalmente que houve esbanjamento, mas alimentou a recuperação dos superavits de alguma Europa? Outra questão, penso que não menos importante, onde esses bancos franceses e alemães arranjaram tanto dinheiro, já que tinham tantos problemas nos seus balanços com os produtos derivados? Coloco uma outra questão, alguém sabe como o BCE monetarizou as dívidas do Estados?? Temo que tivesse beneficiado o eixo franco- alemão, com a independência que possui. Esta trama mal explicada, leva-me a questionar a moralidade desta economia fechada na unilateralidade de certos interesses políticos. Provocando-nos em nós uma monocularidade de que somos responsáveis pela dívida e pelo problema da crise na europa.

  9. PMPa 15 Dez 2011 as 0:07

    O falhanço deste Euro é bem demonstrado pelo que parecia impensável :

    – A Libra sobe em relação ao Euro mesmo com taxas de juro em minimos históricos e a infação está já em retrocesso.

    Afinal o Banco de Inglaterra tinha e tem razão ao “eliminar” 20% da divida publica.

  10. JSa 15 Dez 2011 as 1:04

    VB. Dignamente doutoral e preciso. Eufemismos sofisticados.
    “… a “dívida” dos Estados é tendencialmente infinita, desde que estes tenham crédito no mercado, que lhes permita ir “rolando” os empréstimos que a consubstanciam … ”
    Ou seja como dizia o outro -o menos letrado- “as dívidas gerem-se”? ad infinitum? Como? Vendendo umas ilhas? Tipo expediente grego? Será que alguém estará interressado numa dita, ela mesmo em razoável estado de “rolamento”, Ilha da Madeira? … Era sorte a mais.
    PMP. Boas observações (plural).
    Não sería bom ir pensando em como, depois de arrumar a loja, se possível, “rolar” para fora do espartilho €uro? Até poderíamos pedir aos nossos “velhos aliados” para entrar na sua preciosa àrea, a da Libra Esterlina?. (Old habits die hard). Seríamos assim como dois orgulhosos amigalhaços, ex-milionários imperiais, transmutados, pelas vicissitudes da vida, em vagabundos. Parece que é o que mais vai sobrar nesta Europa. Não?.

  11. Jorge Bravoa 15 Dez 2011 as 9:25

    Old habits die hard and never give Up!

    Melhor é voltarmos ao mar, que esta europa entrou noutra guerra de cem anos!

  12. VBa 15 Dez 2011 as 21:18

    Obrigado pelos comentários.