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Set 15 2012

A Coragem e os medíocres

Publicado por Anunes a 16:05 em Artigos Gerais

Aqueles que, uma vez por outra, têm a paciência de passar os olhos por aquilo que por aqui se escreve, sabem que nunca fui, nem um especial admirador de Passos Coelho, nem da solução desvalorização Fiscal. Aliás, nem de qualquer tipo de desvalorização, para esse efeito, pois, quer os meus modestos conhecimentos de economia ( 1 licenciatura, das velhinhas de 5 anos, 3 Mestrados, 1 programa de Doutoramento e 8 anos de ensino Universitário), quer a minha limitada experiência como gestor de empresas (apenas 20 anos sempre lucrativos, na área dos transaccionáveis e sem subsidios ou dependências Estatais), apenas me permitem reconhecer as suas limitações. Pelo menos até alguém me explicar porque é que Diabo o Reino Unido, depois de uma fortíssima desvalorização da Libra nos últimos anos, continua tão ou mais enterrado na crise, no desemprego e na destruição da riqueza da sua população, como qualquer dos piores Países da zona Euro (com excepção da Grécia). Mesmo assim há por aí quem, vá-se lá saber porquê, continue a defender que a solução para Portugal é voltar ao Escudo (por vezes o Ego de cada um sobrepõe-se a qualquer racionalidade). Mas adiante.
Dito isto, gostaria de afirmar aqui e de forma clara e inequívoca que, a actual medida de redução da TSU compensada pelo aumento das contribuições para a SS por parte dos trabalhadores, é, na minha modesta opinião:
1) Correcta;
2) Oportuna e necessária;
3) Corajosa

E explico porquê:

1) Correcta:
Embora não seja provável que a redução da TSU, nesta dimensão, tenha impacto mediato na criação de emprego, ela terá dois efeitos certos, não menos importantes: Irá começar a travar de imediato a criação de desemprego (que se está a tornar um perigo descontrolado para a nossa sociedade) e constitui um claro acelerador na criação de emprego quando, mais tarde, a recuperação se iniciar.
Só quem nunca geriu empresas e não sabe como as decisões de contratação ou despedimento são tomadas, quem vive da demagogia e mediocridade Politica, ou quem fala em nome de empresários com interesses debaixo da mesa, poderá não reconhecer estes dois efeitos extraordinariamente positivos para a saída da crise e a criação de uma sociedade mais rica e justa.
De salientar aqui a forma extraordináriamente cuidadosa, corajosa e séria com que a UGT tem vindo a tratar este tema, não fechando portas e procurando entender primeiro para, fundamentadamente, decidir depois.

2) Oportuna e necessária:
Para além de correcta, a medida é também oportuna e, mais do que isso, urgentemente necessária.
De facto, estávamos a assistir a uma continuada degradação das condições orçamentais e a um claro afastamento dos objectivos a que nos comprometemos com a Troika, com risco de deitar a perder todo o capital de credibilidade arduamente conquistado no último ano. E quando digo “nós”, digo também e primeiro do que tudo o Partido Socialista (foi o principal, embora não único, responsável pela falência financeira do País e da colocação em risco da Democracia pós 25 de Abril. Ou julgam que, na nossa modorrenta democracia, não existe quem sonhe e se movimente em prol doutros tempos e doutros regimes? Se julgam, estão profundamente enganados…)
Mas se nos lembrarmos que o “patrão”, esse ser “horrendo” e “vil”, que vai beneficiar da parte mais substancial desta transferência da TSU é o Estado (ou seja, somos felizmente todos nós contribuintes) talvez comecemos a vislumbrar algumas das virtudes desta medida e pensemos duas vezes antes de sair à rua e contribuir para estados de histeria irracional. Fico sempre confuso quando aqueles que mais beneficiam de uma medida (embora indirectamente) saem à rua gritando palavras de ordem contra a mesma.
Nós, Portugueses, somos useiros e vezeiros em dar tiros no pé. Mas em situações especialmente criticas talvez seja conveniente começar a pensar duas vezes antes de o fazer.

3) Corajosa:
Finalmente, esta medida é corajosa.
Corajosa, porque certamente nenhum dos membros do actual Governo ignora o “petisco” que iria oferecer de mão beijada a todos os demagogos e medíocres que nos governaram nas últimas dezenas de anos. Sejam eles do PS, sejam eles do PSD e exerçam ainda, ou não cargos de soberania nacional. Em nada me surpreenderam as “figuras públicas” que sairam a criticá-la. Nenhuma delas teria (ou alguma vez teve, se tivessem tido não teríamos chegado aqui) tal nível de coragem.
É que da mesma forma que existe a “boa e a má moeda”, também existe “boa “ e “má economia” e “bons e maus economistas”.
E quem paga a mediocridade destes últimos são sempre os mesmos Portugueses.
Já chega!

PS: Nada do que fica dito acima significa que este Governo não precisa de melhorar (muito), que não precisa de ser re-estruturado, largando borda fora Ministros que nada acrescentam e que há muito não passam de lastro (Relvas e Pereira são gritantes), e que, a bem da Democracia e deste País que, por vezes, nos desespera, toda uma atitude de diálogo e transparência democrática deveria ser cultivada e aprofundada. Este Governo não está a ouvir a sociedade civil, nem a aproveitar toda a riqueza de pensamento e de soluções que esta tem para oferecer no esforço conjunto de recuperação daquilo a que poderiamos chamar um “estado normal de exercício da Democracia em Portugal”.
Deve fazê-lo. Tem de fazê-lo.

2 comentários até agora

2 Comentários para “A Coragem e os medíocres”

  1. Tiago Rochaa 17 Set 2012 as 22:12

    1) http://economia.publico.pt/Noticia/estudo-mudancas-na-tsu-falham-aposta-na-criacao-de-emprego———-1563450
    2) Oportuna e Necessária caso 1) seja verdade – parece que não é claro que o seja.
    3) Verdade se houvesse sentido político neste Governo. Claramente não há => não é coragem.

  2. anunesa 19 Set 2012 as 8:25

    Caro Tiago
    1) Nada do que é dito nesse artigo invalida o que refiro em 1). Esta medida não cria empregos imediatos, estamos de acordo,mas de certeza que contém desemprego e de certeza que é acelerador de criação de emprego quando se iniciar a recuperação.
    Além disso, a medida tem um efeito importantissimo que ainda não foi “apanhado” em toda a sua dimensão pelos modelos económicos e pelos raciocinios académicos: Ela introduz mais transparência no mercado de trabalho dando a conhecer aos trabalhadores a verdadeira dimensão do que lhe é retirado pelo Estado do valor do seu trabalho. E, a prazo, maior transparência nos mercados é sempre bom para a competitividade e crescimento de qualquer economia;
    2) Idem;
    3) O problema é (e tem sido sempre) a Politica. Os Portugueses não levam Politica para casa no final do mês, nem dão Politica a comer aos filhos. A decisão é corajposa porque, pela primeira vez, alguem tentou fazer Economia e “lixar-se” para a Politica.
    Só que está a ser trucidado pelo rebanho dos medíocres.
    Para mim, como Português sem correntes nem “argolas no nariz”, é triste de ver.