Projeções a Longo Prazo dos Grandes Blocos Económicos Mundiais (2021-2060) - Abel Mateus

Vamos apresentar nesta nota um conjunto de cenários para a economia mundial que poderá servir de base aos estudos da Sedes, e em particular ao GT Geopolítica, para o período 2021-2060, e baseado em projeções da OCDE publicadas em The Long View: Scenarios for the World Economy to 2060, OECD Economic Policy Paper 22, July 2018.

Nesta nota vamos apresentar o Cenário de Base e algumas variantes que traduzem: (i) Reformas Estruturais na OCDE para acelerar o crescimento, e (ii) reformas institucionais nos países emergentes, e em particular nos BRICs que poderão acelerar a convergência para a fronteira mundial. A nota encerra com algumas considerações de geopolítica.

 

  1. CENÁRIO DE BASE DA OCDE

As projeções de base assentam num modelo tipo neoclássico de fatores produtivos: capital, trabalho e progresso técnico. As projeções baseiam-se na ideia de que existe uma fronteira tecnológica implícita na evolução dos países mais desenvolvidos e que os países vão convergindo para essa fronteira a taxas mais ou menos elevadas devido não só à acumulação de fatores produtivos, mas também à transferência de tecnologia e às políticas económicas adotadas.

As grandes conclusões são:

  • A taxa de crescimento do PIB potencial (a tendência desta variável) cai de 3,5% atualmente para 2% em 2060, principalmente devido à convergência das economias emergentes que implica uma desaceleração do seu crescimento. Em particular a China baixa de um crescimento de 8,2% na década de 2010 para 4,6% na década de 2020 e 1,8% em 2030-2060. A India, que está mais atrasada no processo de convergência baixa de 5% na década de 2020 para 3,9% nas décadas de 2030-2060.
  • Este continuará a ser o século da Ásia, com a produção mundial a deslocar-se cada vez mais para o Pacífico e India. A China que tinha uma quota de cerca de 14% do PIB mundial, em PPC, em 2005 deve atingir o pico de 27% em 2030 e depois regredir ligeiramente. A India que tinha uma quota de 6% em 2005 vai aumentando progressivamente a sua quota até 14% em 2030 e cerca de 20% em 2060, próximo da China. Os BRICs aumentam o rácio do seu PIB em relação à OCDE de 63% em 2020 para 98% em 2040 e depois estabilizam.
  • As projeções da população mundial do Census Bureau, EUA, mostram que esta sobe de 7,8 mil milhões em 2021, com uma taxa de crescimento de 1%, para 8,4 em 2030 e 10,2 mil milhões em 2060. A população da UE baixa de 447 milhões em 2020 para 432 milhões em 2060, a dos EUA sobe de 333 para 404 milhões, o Japão sofre uma quebra dramática de 125 para 100 milhões. A China também tem uma redução de 1,39 para 1,25 mil milhões, enquanto que a India sobe de 1,33 para 1,65, tornando-se o país mais populoso do mundo.
  • O nível do PIB per capita, em PPC continua a aumentar em todos os países do mundo. Os EUA que tem o maior valor entre os grandes países, veria o seu nível duplicar em 40 anos: subindo de 42 mil Euros em 2018 para 81 mil em 2060. Evolução semelhante teria a UE com uma subida de 30 para 60 mil Euros. A China conseguiria triplicar o seu PIB per capita de 10 para 33,6 mil Euros, ficando a cerca de 54% da média da UE. Já a India, apesar de multiplicar quase por 5 o seu nível de vida, continuaria a ocupar a última posição entre o nosso grupo de países, com 9,4 mil Euros.
  • As reformas estruturais nos países da OCDE, pela aproximação aos cinco melhores países do grupo, podem gerar substanciais melhorias do nível de vida em 2060, relativamente ao cenário de base: (i) 6% do PIB para a I&D, (ii) 10% no mercado de trabalho, (iii) 8% nos mercados de produtos e serviços, (iv) 4% melhoria do investimento público; e (v) 2,5% na reforma dos sistemas de pensões. No total o PIB per capita poderia subir cerca de 30% em relação ao cenário de base.
  • As reformas institucionais nas economias emergentes podem também gerar substanciais benefícios. Se a qualidade da governação e os níveis de educação se aproximarem dos países da OCDE, os níveis de vida dos BRIICs podem subir de 30 a 50% em relação ao cenário de base, em 2060.

 

Em termos de geopolítica, é importante notar o seguinte:

  • A União Europeia vai continuar a registar uma queda do seu PIB total em relação aos EUA, passando de 94% em 2018 para 79% em 2060
  • A Rússia deverá continuar a registar uma queda do seu PIB em relação à UE, passando de 17% em 2018 para 12% em 2060
  • A China irá continuar a registar um forte aumento na sua dimensão da economia em relação à UE, passando de 103 para 146% entre 2018 e 2060
  • A China em relação aos EUA deverá continuar a registar uma forte subida na sua posição relativa entre 2018 e 2030, passando a sua economia a representar de 97 a 131%, mas depois deverá cair para 115%
  • O peso da economia chinesa e russa em relação à OCDE deve continuar a subir de 48 para 64%, e depois cair ligeiramente para 59% em 2060.

 

 

 

 

 

 

 

 

       2. CENÁRIO: REFORMAS ESTRUTURAIS NA OCDE

 Alguns grandes países da UE têm registado uma evolução decepcionante da Produtividade Total dos Fatores desde os anos 2000, o que tem travado o crescimento desta região. Em particular tem havido um colapso na PTT na Itália e quase estagnação na Espanha e França (e Portugal). Se considerarmos o período de 1990 a 2020 também se pode considerar um colapso os casos de Portugal e Espanha.

 

 Fonte: PWT 10

 

Porque é que se deu o colapso da Itália? Existem mais de uma dezena de trabalhos de excelentes economistas italianos sobre edta questão. Uma das principais razões avançadas tem a ver com a qualidade da governação e as instituições. A ligação entre o poder político e os grandes grupos económicos, desde Berlusconni, e o clientelismo e crony capitalism craido em torno dos grandes grupos familiares, e a multidão de pequenas e médias empresas bloquedas com uma burocracia, sistema fiscal e regulação asfixiantes. Outro factor tem a ver com o clientelismo e a falta de meritocracia. Também se deve citar o progresso mais lento na acumulação de capital humano. Outro tem a ver com a baixa qualidade das políticas económicas.

De uma forma ou de outra estes factores também existem em maior ou menor grau nos outros países que registaram uma evolução desfavorável como a Espanha, Portugal e Grécia, e até a França. Também a Croácia mostra uma evolução menos favorável, para não falar nos Balcãs que permanecem uma região subdesenvolvida no Continente Europeu.

A persistência desta evolução, sem reformas estruturais, mostra uma clara diferenciação entre o Mezzogiorno ou Sul da Europa e o próspero Norte, o que poderá levar a uma situação mais ou menos conflituosa no futuro.

 

 

 

  1. CENÁRIO: REFORMAS INSTITUCIONAIS NOS PAÍSES EMERGENTES

 

  1. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES DE GEOPOLÍTICA

 

 

Podemos construir várias combinações de projeções para os grandes blocos. No quadro abaixo consideramos a hipótese de reforma, não reforma entre os EUA e a UE. Nas células do quadro estão o PIB total para 2060 em biliões (trillions) de Euros. Por exemplo, no caso de os EUA empreenderem um conjunto de reformas que faça subir o seu PIB potencial e a UE não o fazer, o PIB do primeiro atingirá quase o dobro do segundo em 2060 (47 contra 27 biliões de Euros). E se a UE reformar e os EUA não reformarem, em 2060 o PIB dos dois blocos atingiria o mesmo valor (34).

 

 

UE

EUA

 

Reforma

Não Reforma

Reforma

(45,34)

(45,27)

Não Reforma

(34,34)

(34,27)

 

Da mesma forma podemos considerar agora os EUA em confronto com a China. Neste caso, se a China reformar e os EUA não reformarem, aquela atinge um PIB total em 2060 que é quase o dobro dos EUA (59 biliões contra 34 dos EUA). Enquanto que na situação oposta os EUA continuam à frente da China, com 45 biliões versus 39 biliões de Euros.

 

 

China

EUA

 

Reforma

Não Reforma

Reforma

(45,59)

(45,39)

Não Reforma

(34,59)

(34,39)

 

Este resultado leva-nos a um paradoxo:

Paradoxo: Este jogo mostra que é preferível tanto para a UE como para os EUA que a China não faça reformas institucionais. Lembremo-nos que no caso da China as reformas mais importantes são: (i) melhorar a qualidade da governação da economia, o que implica alteração do regime de política económica e é claramente mais difícil de acontecer dada a tendência atual do regime comunista; e (ii) atingir os níveis de qualidade e quantidade de formação do capital humano dos países desenvolvidos, o que é muito provável que aconteça.

Outra conclusão da maior importância geopolítica é que: a resposta ao desafio chinês tem que ser a de que tanto a UE como os EUA devem fazer reformas para não haver um forte desequilíbrio de forças.

 

  1. O CONFLITO ENTRE OS EUA (E ALIADOS) E A CHINA

Some analysts, citing Thucydides’ attribution of the Peloponnesian War to Sparta’s fear of a rising Athens, believe the US-China relationship is entering a period of conflict pitting an established hegemon against an increasingly powerful challenger.

Economic and ecological interdependence reduces the probability of a real cold war, much less a hot one, because both countries have an incentive to cooperate in a number of areas. At the same time, miscalculation is always possible, and some see the danger of “sleepwalking” into catastrophe, as happened with World War I.

Even if China surpasses the US to become the world’s largest economy, national income is not the only measure of geopolitical power. China ranks well behind the US in soft power, and US military expenditure is nearly four times that of China. While Chinese military capabilities have been increasing in recent years, analysts who look carefully at the military balance conclude that China will not, say, be able to exclude the US from the Western Pacific.

China plans to lend more than $1 trillion for infrastructure projects with its Belt and Road Initiative over the next decade, while the US has cut back aid. China will gain economic power from the sheer size of its market as well as its overseas investments and development assistance. China’s overall power relative to the US is likely to increase.

The US also has demographic advantages. It is the only major developed country that is projected to hold its global ranking (third) in terms of population. While the rate of US population growth has slowed in recent years, it will not turn negative, as in Russia, Europe, and Japan. China, meanwhile, rightly fears “growing old before it grows rich.” India will soon overtake it as the most populous country, and its labor force peaked in 2015.

Energy is another area where America has an advantage. A decade ago, the US was dependent on imported energy, but the shale revolution transformed North America from an energy importer to exporter. At the same time, China became more dependent on energy imports from the Middle East, which it must transport along sea routes that highlight its problematic relations with India.

America also remains at the forefront in key technologies (bio, nano, information) that are central to twenty-first-century economic growth. China is investing heavily in research and development, and competes well in some fields. But 15 of the world’s top 20 research universities are in the US; none is in China.

Those who proclaim Pax Sinica and American decline fail to take account of the full range of power resources. American hubris is always a danger, but so is exaggerated fear, which can lead to overreaction. Equally dangerous is rising Chinese nationalism, which, combined with a belief in American decline, leads China to take greater risks. Both sides must beware miscalculation. After all, more often than not, the greatest risk we face is our own capacity for error.

 

  1. CENÁRIOS DE LONGO PRAZO ALTERNATIVOS: DECLÍNEO DEMOGRAFICO, ESTAGNAÇÃO E O FIM DA HUMANIDADE

Existe um movimento avassalador para descarbonizar a economia para evitar uma catástrofe climática. Contudo, as piores estimativas mostram uma perda do PIB em 2100 de 7%, enquanto que no longo prazo uma população em contínuo declínio leva à sua extinção, o que resulta da tendência atual dos países mais desenvolvidos. Repare-se que uma taxa de crescimento de -1% ao ano da população leva a uma redução de 64% da população em 100 anos, semelhante ao que se está a passar com o Japão.

Num recente seminário de Chad Jones da Universidade de Stanford apresentou um modelo muito simples em que o progresso técnico depende do número de inovações produzidas por novas ideias, e para produzir ideias são necessárias pessoas. Com a redução da população há cada vez menos pessoas e assim menos ideias, pelo que não há progresso técnico e a economia acaba por estagnar: o crescimento é nulo. A evolução é ainda mais rápida para a estagnação se supusermos que são cada vez mais pessoas para produzir mais ideias.

Será o fim da humanidade? Este é o resultado do modelo simples, mas com certeza que a realidade é mais complexa, e a humanidade acabará por reajustar-se.

 

  1. A PRESSÃO DEMOGRÁFICA DE ÁFRICA SOBRE O CONTINENTE EUROPEU E DA AMÉRICA LATINA SOBRE OS EUA

O problema da imigração tem dominado a agenda política tanto na Europa como nos EUA. As projeções demográficas e do nível relativo do PIB são essenciais para perceber as pressões demográficas que irão persistir naquelas regiões. Os quadros seguintes dão-nos uma ideia dos cenários que se propõe para as próximas décadas.

No caso da Europa e da EU verifica-se um agravamento sem precedentes da pressão da África sobre o continente a Norte. De um rácio entre as populações de 2,6 em 2020, devido à explosão demográfica em África, o rácio passa para mais do dobro: 5,7 em 2060. Este rácio continuará a crescer de forma acentuada até 2100. Esta pressão poderá ser em parte moderada pelo rácio entre os níveis relativos do PIB per capita que passam de 0,13 para 0,21.

No caso da relação entre os EUA e a América Latina, o rácio entre as populações destas duas entidades geográficas passará de 1,97 para 1,9, enquanto que o nível de vida relativo sobe ligeiramente de 0,38 para 0,44.

 

Em termos de composição da população dos EUA por raça, as projeções do Census Bureau americano mostram uma queda dos brancos não hispânicos de 60 para 44% entre 2020 e 2060, com a subida dos latinos de 19 para 27% e dos asiáticos de 6 para 9%. Mesmo com o cenário de imigração intensa, estes dois últimos grupos apenas sobem cerca de 2 pontos percentuais.

 

  1. ÍNDICES DE PODER

Existem vários Índices de Poder geoestratégico, que resultam da agregação de múltiplos fatores que influenciam o poder de um dado país ou agregado político. Um dos Índices disponíveis é o Índice de Poder Global do https://www.globalfirepower.com/countries-listing.php que agrega 50 fatores de natureza económica, demográfica, militar e geográfica. A Figura seguinte mostra os índices para 2021 divulgados no site citado, mas em escala inversa.

Como podemos observar, os EUA é o país com maior poder no mundo, seguido de perto pela Rússia e em terceiro lugar pela China, e mais abaixo pela India. Os fatores mais vulneráveis destes três países são os de endividamento.

O primeiro país da UE a aparecer neste índice é a França em 7º lugar, próxima do Reino Unido. Dentro deste grupo de vinte países aparece também a Itália e a Alemanha.

A EU considerada no seu conjunto tem um índice de poder incomparavelmente inferior às três potências mundiais, e mesmo abaixo da 20ª posição, o que mostra a extrema vulnerabilidade em que se encontra.

Fonte: cálculos do autor baseados em https://www.globalfirepower.com/countries-listing.php

As projeções aqui feitas mostram que a China tem possibilidade de se tornar na maior potência mundial em 2030, o que mostra a importância de organizações de defesa ocidental como a NATO.

 

  1. CONCLUSÕES DE POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS

A construção de cenários a longo prazo, aqui a 20 e 40 anos, está sempre eivada da maior incerteza, pelo que só tem utilidade ajudando a perspetivar estratégias e políticas de longo prazo, que devem ser objeto de revisão periódica, há medida que o futuro se vai concretizando. È exatamente neste sentido que podemos deduzir dos cenários acima apresentados um conjunto de políticas e estratégias de longo prazo, na perspetiva de cada um dos grandes grupos económicos.

Comecemos por aquele que nos oferece maior interesse que é a União Europeia:

  • O elevado declínio demográfico coloca questões importantes como a desaceleração do crescimento económico, o envelhecimento da população com o consequente peso financeiro e a perda de posição geopolítica, pelo que são urgentes medidas de contenção, nomeadamente incentivos à natalidade e políticas de encorajamento da imigração, para além de medidas de extensão da participação na população ativa depois dos 65 anos.
  • A perda de peso em termos económicos, sobretudo se outras potências empreenderem reformas tendentes à aceleração do seu crescimento, levanta a urgência de reformas estruturais que permitam a aceleração do crescimento a médio e longo prazo.
  • A UE permanece um anão em termos geomilitares, pelo que são necessárias políticas de aumento gradual e inteligente de melhoria da sua capacidade militar, para poder desempenhar o papel de guardião dos direitos humanos e defesa da democracia. É também fundamental manter a posição dos países membros dentro da NATO, a qual deve continuar a desempenhar o papel de proteção da Europa perante as ameaças da Rússia.
  • Em termos geo-estratégicos, a UE deve continuar e reforçar as suas alianças com os EUA, Reino Unido e demais países que comungam a mesma ideologia baseada na democracia e economia de mercado, e manter uma concorrência estratégica com a Russia e China, enquanto estes blocos não comungarem dos mesmos princípios de direitos humanos e respeito pelas nossas instituições.
  • O peso da área do Indo-Pacífico vai continuar a subir de forma acentuada, pelo que é fundamental que a UE, em cooperação estratégica com os EUA, mantenha relações equilibradas com esta zona.
  • O forte aumento demográfico em África e a pressão de emigração que manterá sobre a Europa implicam que a UE mantenha um elevado esforço de ajuda ao desenvolvimento desta zona e mantenha a paz no Continente.

No caso dos EUA é fundamental que:

  • Mantenha a sua posição de liderança geomilitar e a posição central na NATO.
  • Desenvolva a sua economia de forma a manter a liderança económica e tecnológica a nível mundial.
  • Mantenha uma concorrência pacífica com a China e Rússia de forma a equilibrar as relações entre as grandes potências mundiais.
  • Continue a manter a relação de equilíbrio na região Indo-Pacífica do ponto de vista económico e militar.
  • Se continue a afirmar como garante da ideologia dos regimes democráticos e de economia de mercado, mantendo a sua posição de liderança nas instituições internacionais e como guardião do multilateralismo.

 

Abel Mateus

03-03-2021