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Nov 24 2008

Dissonância cognitiva

Publicado por Pedro Magalhaes a 10:34 em Democracia,Eleições,SEDES

Um dos conceitos mais importantes da Psicologia Social é o “princípio de redução de dissonância cognitiva”. Quando confrontados com percepções e atitudes que não se ajustam entre si, os indivíduos procuram resolver esta contradição. Se têm uma atitude sobre algo, evitam expor-se a informação que a contrarie. E se expostos a essa informação, tendem a desvalorizá-la e a esquecê-la, de forma a não colocar em risco uma atitude pré-existente. As aplicações do conceito são múltiplas, até nos estudos eleitorais, especialmente no que diz respeito à convicção de muitos investigadores de que as predisposições que os eleitores já trazem consigo para as campanhas só muito dificilmente são mudadas por elas, pelos debates ou pela comunicação social.
 
Vem isto a propósito de um artigo de Rui Tavares hoje no Público (e dentro de dias, aqui). Nele, criticando a “falta de coragem democrática” com um dos principais problemas políticos de Portugal, recorre a um artigo que tinha escrito há meses sobre uma tomada de posição da SEDES, que Rui Tavares interpretou (e interpreta) como fazendo parte de uma “funesta tradição de gente que desconfia das eleições [ou da democracia]).”
 
É muito curiosa esta leitura. A tomada de posição da SEDES, para aqueles que se recordam, analisava três áreas da governação: legislação laboral, saúde e educação. Depois de documentar várias medidas em cada uma dessas áreas que os signatários achavam dignas de aplauso, o documento mencionava sinais recentes e concretos de que o governo se preparava para mudar de políticas nalgumas dessas áreas para direcções mais incertas, e relacionava essa inflexão com a aproximação das eleições. E criticava essa inflexão, sugerindo inclusivamente que, ao contrário da interpretação habitual, a popularidade do governo poderia sofrer mais com essa inflexão do que com o caminho já percorrido: “exactamente no momento em que o Governo inicia uma aparente suspensão do processo das reformas, a opinião pública parece voltar-se contra ele. Coincidência ou causalidade, nunca saberemos, mas os sacrifícios feitos por todos não podem, nem devem, ser desperdiçados.”
 
A leitura feita por Rui Tavares e muitos outros nessa altura – e, pelos vistos, ainda hoje – foi a de que tudo isto exprimia desconfiança em relação aos eleitores e à democracia. Mas foram raros os que fizeram a leitura que, à luz do que o documento realmente diz, seria a mais correcta: precisamente a leitura oposta. A de que os governos não necessitam de ter medo dos eleitores; de que a distribuição de benesses e de última hora não enganaria muita gente; e de que muitos eleitores que estiveram dispostos a fazer sacrifícios não estariam muito dispostos a ver esses sacrifícios desperdiçados na recta final. Mas o “princípio de redução da dissonância cognitiva” impediu, pelos vistos, essa leitura.
 
Há provavelmente alguns atavismos anti-democráticos na cultura política portuguesa: uma visão muito negativa do conflito político e partidário; a ideia de que a democracia produz indecisão e ingovernabilidade; e até, talvez, a percepção de os eleitores não são gente de confiança (o meu artigo no Público de hoje, amanhã aqui, é em parte sobre isto). Mas há outro atavismo não menos curioso: a ideia de que todos os debates políticos se podem resumir a conflitos entre maioria e oposição e de que todas as vozes críticas são de “inimigos do governo”. A facilidade com que pessoas inteligentes se encaixam neste esquema é por vezes, mesmo com toda a Psicologia Social, surpreendente.

7 comentários até agora

7 Comentários para “Dissonância cognitiva”

  1. [...] e sem grandes hipóteses de dar uma resposta decente a este artigo de Pedro Magalhães (também aqui), a propósito da revisita que faço hoje a um documento da SEDES (de Julho passado) em que se [...]

  2. André Barataa 24 Nov 2008 as 13:14

    Eu aprecio as crónicas de Rui Tavares e, ainda hoje, defendeu um ponto com que concordo – genericamente, temos um problema de cultura política em Portugal. É só pena que, fazendo este diagnóstico, por vezes resista pouco à tentação que ainda há dias discutíamos a propósito de um “post” de Vítor Bento. Quem reclama por maior cultura política deve, presumo, elevar para si próprio a bitola da exigência, desde logo no plano da argumentação. Exigi-la aos outros, achando-se à vontade para aparvoamentos é que não; é tique de elitismo intelectual. E nesse plano, vale a pena desmontar o argumento do comentador:

    1. Na referida declaração da SEDES encontra-se várias afirmações (sobretudo na conclusão) que sustentam a ideia de uma desconfiança, simplesmente não em relação à democracia ou às eleições (como pretende Rui Tavares), mas ao comportamento do governo face à proximidade daquelas. Alega-se ainda que a opinião pública não está satisfeita e que é preciso animar uma Democracia representativa.

    2. Como dois mais dois são quatro, concluir-se-ia que a declaração da SEDES alertou a sociedade para o facto de uma certa governação poder estar em causa apenas porque actos eleitorais se avizinham; e concluir-se-ia que a SEDES está convicta de que uma democracia representativa atenta não deixará de notar, avaliar e retirar consequências do facto mencionado.

    3. Mas por que razão Rui Tavares vê numa desconfiança de eleitoralismo uma desconfiança relativamente à democracia? Poderia ter comentado a primeira, o que não fez, quando até encaixava bem no diagnóstico do problema da cultura política em Portugal. Em vez disso, preferiu empolar a segunda, que já nenhum sentido fazia, com obscuras menções a funestas tradições de gentes, a ver se colava uma impressão profundamente desagradável a quem se sente democrata.

  3. causavossaa 24 Nov 2008 as 13:50

    Curioso este post e esta dissonância cognitiva! Dado que se parece muito verdadeiro no palco das vaidades dos actores, a força do seu princípio parece em Portugal, por maioria de razão e de visão, directamente proporcional à afirmação unisonante cognitiva, do peremptório e sem mácula!

    Ainda há alguém que ouça sem reservas o que o outro tem para dizer? Não seria nessa diversidade que nos poderíamos afirmar? Mas é aquilo que, verdadeiramente do alto da nossa cátedra, praticamos todos sem sobranceria e quantos vezes desprezo?

    A examinar, e examinarmo-nos, cuidadosamente!

  4. Pedro Pita Barrosa 24 Nov 2008 as 18:15

    Tendo sido co-signatário do texto da SEDES curiosamente, ou talvez não, revejo-me na descrição da intenção do texto apresentada pelo Pedro Magalhães.

    A interpretação do Rui Tavares denota apenas que não escrevemos da forma como ele escreveria as mesmas ideias:

    - a preocupação é com o eleitorismo, não com as eleições
    - o reconhecimento de que os eleitores são inteligentes e que será desperdício deitar fora os sacrificios feitos

  5. VBa 24 Nov 2008 as 18:33

    Pedro,
    O problema na compreensão do texto da Sedes é que, como você sabe melhor que eu, muita gente tem uma ideia algo idílica da democracia, corporizando um conceito que só existe precisamente como conceito (abstracto): o eleitorado. Por isso e contrariamente ao que é frequentemente referido nas análises eleitorais, o eleitorado nunca votou. Quem vota são as pessoas, individualmente, cada uma com as suas próprias razões (aspirações e interesses). Mesmo que, no final, um conjunto de pessoas tenha votado da mesma maneira (i.e. no mesmo partido, ou na mesma pessoa), cada uma fê-lo pelas suas próprias razões e algumas dessas razões podem até ser contraditórias entre si, apesar de conduzirem ao mesmo resultado (i.e. ao mesmo voto). Ou seja, a soma dos resultados não é igual à soma das motivações.

    Por outro lado, quem disputa as eleições em geral não disputa todo o eleitorado (i.e. o conjunto de todos os eleitores), ou, pelo menos, não o disputa todo da mesma maneira. Muitos eleitores – provavelmente a grande maioria – têm a sua preferência estabilizada e, por isso, os partidos têm uma base eleitoral relativamente estável. Relativamente a estes, a preocupação dos partidos é não os perder para a abstenção, precisando assegurar um mínimo de consistência programática. Fora desta base, há um conjunto de eleitores menos arreigados a uma preferência estabilizada – “eleitores instáveis”, chamemos-lhes assim – e mais disponíveis para “circular”, pelo menos entre partidos próximos. Por isso, estes são os mais disputados por quem se candidata à governação, sendo criadas “mensagens” específicas para cada “franja” eleitoral em disputa, já que é este conjunto que, em regra, decide (na margem) o resultado de uma eleição.

    E é por isso que os governos, quando se aproxima o momento de disputar eleições, procuram seguir políticas que minimizem os descontentamentos, e/ou atraiam o contentamento, das “franjas” que podem influenciar decisivamente o resultado das eleições. Para isso tendem a seguir políticas chamadas “populistas” e pôr em hibernação temporária reformas que possam previsivelmente causar maiores danos eleitorais.

    Tomar isto como um dado analítico e referi-lo numa tomada de posição não tem nada de democepticismo. Tem apenas em conta, pragmaticamente, o funcionamento real da democracia.

    Nota: Não fui subscritor do documento em causa.

  6. Maria Teresa Monicaa 24 Nov 2008 as 19:52

    A minha leitura do documento da SEDES foi a de o governo estar de alguma forma amedrontado com a aplicação das reformas cair no ano eleitoral e do pulsar dos cidadãos estar a afastar-se do apoio maioritário obtido, advertindo o executivo que deveria continuar na via reformista., A SEDES, numa altura em que se antevia falta de resposta para uma previsiva crise social, prescrevia a manutenção das reformas convicta de que o costumado bom senso dos eleitores os levaria a aceitar os sacrifícios indispensáveis para Portugal poder responder aos desafios do futuro. E sublinhava a necessidade dos partidos políticos estarem à altura do momento em que vivemos.

    Com o defragar da crise penso que se torna cada vez mais necessário não só o prosseguimento das reformas, acautelando eventuais efeitos perversos, como um debate profíquo acerca da melhor forma de executar essas alterações consideradas imprescindíveis. Resistir ao imobilismo desejado por alguns consegue-se demonstrando que existe uma maioria que pretende seguir em frente, não temendo inevitáveis escolhos.

    Essa maioria só se obtém com um debate esclarecedor acerca das vantagens futuras e das desvantagens conjunturais. O debate do partido que está no poder não sei se existe, pois apenas se houvem meia dúzia de vozes, não direi em uníssono porque o Manuel Alegre de vez em quando aparece. O do maior partido da oposição resvalou para uma guerra intestina sem grande interesse no campo das ideias. O do PCP é aquilo que o centralismo democrático consente, ou seja, nulo. O CDS arrasta-se com alguns lampejos. O Bloco de Esquerda mantém alguma vivacidade para animar as hostes e não só.

    Na defesa da democracia representativa dever-se-ia acentuar o debate de ideias. Não é por acaso que os que lhe são contrários a denominaram ao longo dos tempos como palradora, conversadora, etc.. Mas conversar é perceber, através do diálogo entre os partidos, as ansiedades de quem nada tem e que pensa ser perdedor nas reformas em curso, e é convencer através de argumentos acessíveis o que se pretende alcançar e qual o caminho a percorrer e, por último, saber como terminar com uma casta de gente mais ou menos intocável que pensa que pode viver acima da lei e que tudo lhes é devido. A quase total ausência de solidariedade social da classe dirigente portuguesa advém da sua fraqueza, certamente, mas a falta de compaixão provém também de uma crónica deficiente educação. O regime democrático alargou em muito a instrução da população, mas essa inclusão foi feita de forma em que a bitola é muitissimo baixa. Muitos se perderam e perderão se a fasquia não fôr elevada, se não se exigir à escola tudo e mais alguma coisa, perdendo-se a noção de que quem anda na escola deve estudar e aprender, se necessário, elementos rudimentares de convivência. Mas também tenho a impressão de que enquanto não se souber o que deve a escola ensinar, enquanto não se debater o que é mais importante na parte curricular, não se irá muito longe na calamitosa situação a que chegámos.

    A capacidade de sofrimento dos portugueses é muita, mas muitos também são os sinais de que estamos numa época parecida com os anos trinta do século passado. As alturas de crise, se bem aproveitadas, podem rejuvenescer um tecido social anquilosado. Mas é preciso perseverança na justeza do que se faz. Será que existe? Ou serão “trucidados” exactamente aqueles que mais poderiam contribuir para uma renovação?

  7. augusto santosa 25 Nov 2008 as 0:34

    DISSONÂNCIA COGNITIVA

    (“À desbocada Senhora”)
    Vejam o que acabei de ler este fim de semana! E tudo isto porque foi dito em
    “economês” e entendido em “indigenês” …
    Se a mui Ilustre e M.D. Senhora tivesse falado em “juridês” , nada disto teria
    acontecido . Na verdade , deveria ter dito que o PR (+AR) poderia declarar um prorrogável “estado de sitio” para pôr em ordem este “sitio” tão mal frequentado por “pessoas que não se governam(honestamente) nem se deixam governar”(sic).

    Contudo , no meu humilde “português” , surpreende-me a “ingenuidade” desta
    M.D. Senhora !… Mas SEIS MESES seriam suficientes ???